Artigo completo sobre Dominguizo: fruta certificada na porta da Estrela
Freguesia da Covilhã vive ao ritmo das cerejeiras e pessegueiros com IGP na Cova da Beira
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A estrada desce pela encosta da Cova da Beira e Dominguizo aparece onde o vale se abre, a 415 metros de altitude, território de transição entre a planície cerealífera e as primeiras ondulações que anunciam a Serra da Estrela. O granito assoma aqui e ali nas hortas, a cal branca das casas recorta-se contra o verde dos pomares, e o som da água corre discreto nas levadas que alimentam os campos. Não há monumentos imponentes nem cartazes turísticos — apenas o pulso quotidiano de uma freguesia com 1018 habitantes que ainda vive ao ritmo das colheitas.
Entre a cereja e o pêssego
Os pomares definem a paisagem e a economia local. Dominguizo integra a área de produção da Cereja da Cova da Beira IGP e do Pêssego da Cova da Beira IGP, duas culturas que marcam o calendário da freguesia. Em maio, as cerejeiras carregam de fruto vermelho-escuro, brilhante, com aquele equilíbrio entre doce e ácido que só a altitude e a amplitude térmica conseguem. Semanas depois, os pessegueiros tomam o lugar, com os frutos de polpa firme e sumarenta que abastecem os mercados regionais. Caminhar pelos caminhos agrícolas é sentir o cheiro terroso da rega ao fim da tarde, o zunido dos insectos entre as folhas, o calor acumulado na terra solta.
A ligação ao território alarga-se a outros produtos certificados: o Azeite da Beira Baixa DOP, o Cabrito da Beira IGP, o Borrego Serra da Estrela DOP, o Queijo Serra da Estrela DOP e o Requeijão Serra da Estrela DOP. Não há folclore gastronómico — há, sim, uma cadeia produtiva viva, onde o queijo curado ainda fermenta lentamente em caves húmidas e o cabrito assado ao domingo mantém o ritual das brasas de carvalho.
Porta de entrada para a Estrela
Dominguizo situa-se na orla do Parque Natural da Serra da Estrela e integra o território do UNESCO Geopark Estrela. A freguesia não está no coração granítico da montanha, mas funciona como ponto de acesso natural: daqui, os trilhos sobem em direcção aos vales glaciares, às lagoas de altitude, aos afloramentos rochosos esculpidos pelo gelo quaternário. A geologia muda à medida que se ganha altitude — o xisto dá lugar ao granito porfiróide, as oliveiras cedem espaço aos carvalhos e aos pinheiros bravos.
Para quem percorre o Caminho de Santiago — neste caso, o Caminho Interior ou Via Lusitana —, Dominguizo oferece um respiro entre etapas mais exigentes. A morfologia suave do vale permite uma caminhada sem grandes desníveis, com a Serra da Estrela sempre presente no horizonte norte, massa escura que se tinge de violeta ao entardecer.
Habitada, mas envelhecida
Os números dos Censos 2021 contam uma história conhecida no interior português: 1018 habitantes, densidade de 205 habitantes por quilómetro quadrado, 133 jovens (0-14 anos) e 299 idosos (65+). A freguesia perdeu 12% da população desde 2011, mas continua a resistir melhor que outras no concelho. A única unidade de alojamento registada — uma moradia local — sugere que o turismo aqui é residual, quase doméstico. Quem fica é sobretudo quem nunca partiu ou quem regressou para cuidar da terra e dos pais.
Não há multidões nem instagrammabilidade forçada. Dominguizo oferece algo mais raro: a possibilidade de observar uma comunidade rural ainda funcional, onde o café "O Padrão" abre às 7h para o primeiro bica, onde o tractor atravessa a rua principal ao meio-dia, onde o sino da igreja matriz (reconstruída em 1942 após o incêndio) marca as horas sem pressa. O silêncio aqui não é vazio — é pontuado pelo ladrar de um cão ao longe, pelo arrastar de uma grade nos campos, pelo vento que sacode as folhas dos choupos junto à ribeira. E ao fim do dia, quando a luz rasante dourada banha os pomares e as sombras se alongam na calcada de xisto, percebe-se que há lugares que não precisam de explicação — apenas de atenção.