Artigo completo sobre Ferro: onde o Carnaval ecoa nas ruas de xisto
Aldeia serrana com tradição mineira, Caretos vibrantes e pomares precoces da Cova da Beira
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O som chega antes da imagem: o tilintar agudo de chocalhos de bronze contra o xisto das ruas, as gargalhadas abafadas por máscaras de madeira pintada, os gritos dos Caretos que irrompem pelas esquinas de Ferro em pleno Carnaval. Aqui, a 550 metros de altitude na vertente noroeste da Serra da Estrela, o entudo ainda é coisa séria — ritual que rasga o silêncio invernal e obriga as portas a abrirem-se, os vizinhos a saírem, o quotidiano a suspender-se por algumas horas. Quando os últimos mascarados desaparecem encosta acima, fica o eco metálico a reverberar entre os muros de xisto, como se a própria aldeia guardasse memória do barulho.
Ferro no nome, ferro na terra
O topónimo não mente. Ferro nasceu do subsolo — das jazidas de minério que aqui se extraíam desde a Idade do Ferro e que, na Idade Média, alimentaram forjas e ferrarias espalhadas pelo vale. Fornos cujos vestígios ainda afloram na paisagem, meio engolidos pela vegetação, testemunham uma economia que fabricou armas, ferraduras, utensílios agrícolas e sustentou comunidades inteiras. Com a criação do concelho da Covilhã por D. Sancho I em 1186, Ferro integrou-se num território de fronteira, beneficiando das cartas de foral que estimularam o povoamento. Mas o que verdadeiramente estruturou a vida local foi sempre a montanha: os solos agrícolas intercalados entre xistos e quartzitos, os pomares de cereja e maçã da Cova da Beira que, graças ao microclima quente da vertente sul, dão frutos antes de qualquer outro ponto do país.
A Igreja Paroquial de São Tiago ergue-se no centro do núcleo histórico, pedra calcária clara contrastando com o xisto cinzento das casas circundantes. Lá dentro, retábulos dourados captam a luz rasante das tardes de Verão; no adro, antes da festa de 25 de Julho, montam-se as barracas do arraial, prepara-se o ensopado de borrego Serra da Estrela DOP em tachos de cobre que fumegam desde a madrugada. A Capela de São Sebastião, mais pequena e isolada numa elevação, ainda recorda as antigas romarias de Janeiro, quando se benziam os animais e acendiam fogueiras que pontilhavam a noite fria.
Caminhar entre pedra e água
O rio Alvoco desenha a fronteira natural da freguesia, correndo rápido entre blocos de quartzito e formando poços de água transparente onde, nos dias de calor, ainda há quem se atreva a mergulhar. Os trilhos pedestres do Geopark Estrela — único geoparque português reconhecido pela UNESCO — atravessam Ferro de norte a sul, coincidindo em parte com o traçado do Caminho Interior de Santiago. As setas amarelas pintadas nos muros guiam peregrinos que caminham rumo à Galiza, mas servem igualmente quem procura apenas um dia de marcha entre afloramentos rochosos, carvalhais de folha caduca e matagais de esteva que, na Primavera, tingem a encosta de amarelo intenso.
Nos miradouros naturais que pontuam a rota, o olhar alcança a linha ondulada da Serra da Estrela a leste e, nos dias limpos, a mancha verde-escura do Parque Natural que envolve toda a paisagem. Grifos planam em círculos largos, aproveitando as correntes térmicas; o silêncio só é quebrado pelo vento nos pinheiros e, ao longe, pelo sino da igreja marcando as horas.
Sabores que não mentem
A gastronomia de Ferro não finge sofisticação. É comida de gente que trabalhou a terra e guardou o gado: chanfana de cabrito estufado em vinho tinto e colorau, coelho à caçador com batatas assadas na gordura, ensopado de borrego que aquece as tardes frias de Inverno. Durante a matança do porco, preparam-se salpicões, chouriças de carne e morcelas de arroz segundo receitas transmitidas de geração em geração, penduradas depois nos fumeiros a secar devagar. O queijo Serra da Estrela DOP e o requeijão, produzidos em quintas locais, comem-se com pão de centeio ainda morno e um fio de azeite da Beira Interior DOP — de azeitona galega, prensado a frio, com travo ligeiramente amargo. À sobremesa, o bolo de ferradura, as filhós de abóbora polvilhadas com açúcar e canela, o arroz doce servido em tigelas de barro.
A Feira do Pastor, realizada em Setembro, recupera gestos antigos: ordenha manual, fabrico de queijo ao vivo, tosquia de ovelhas, demonstrações de tecelagem em tear tradicional. É festa e memória ao mesmo tempo, com provas de produtos locais e músicas de concertina que se prolongam até tarde.
O que fica
Quando o sol desce e a luz roça os muros de xisto, Ferro adquire uma tonalidade ocre-avermelhada — ferro oxidado na própria pedra, como se o nome se materializasse a cada entardecer. O frio da noite chega depressa a esta altitude, trazendo consigo o cheiro a lenha das lareiras acesas e o silêncio denso da montanha, pontuado apenas pelo ladrar distante de um cão. É nesse momento — entre o calor residual da pedra e o frio que se instala — que a aldeia revela a sua natureza dupla: dura como o minério que lhe deu nome, maleável como o ferro ao rubro nas forjas antigas.