Artigo completo sobre Orjais: borrego no forno e castanhas do souto de 1892
Freguesia serrana da Covilhã onde moinhos de pedra ainda moem centeio e o fumeiro marca o calendário
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O fumo sobe devagar da chaminé do forno comunitário, desenhando no ar frio de maio o rasto do borrego que assa lá dentro desde as cinco da manhã. O cheiro a alecrim e tomilho mistura-se com o da lenha de carvalho, e a praça de Orjais enche-se de vozes baixas — conversas que se esticam entre uma fornada e outra, enquanto as mãos esfregam o frio ou seguram um copo de tinto da Beira Interior. Aqui, aos quinhentos metros de altitude, o tempo não se mede por horas, mas pelo ponto da carne e pela cor que o céu vai tomando sobre os montes. E se o António disser que o borrego está no ponto, está. Não discutas com quem tem 80 anos e já assou mais cabras do que tu viste na vida.
Pedra, água e lã
A freguesia estende-se em casais dispersos — Valongo, Aldeia Nova, Orjais mesmo — ligados por caminhos de terra batida que ladeiam olivais centenários e soutos plantados há mais de um século. O mais antigo, de 1892, continua a dar castanhas doces e miúdas, que se comem assadas ou vão parar à sopa de feijão manteiga do outono. A ribeira de Orjais corre entre xistos escuros, formando poços de água transparente onde ainda se vêem as levadas que alimentavam os moinhos. Um deles, recuperado no parque de merendas, mantém as mós de granito intactas e, sob marcação, ainda mói centeio para quem queira sentir o grão a transformar-se em farinha debaixo dos dedos. É bonito, sim, mas leva uns trocos para o pão-de-ló da Amélia que está lá ao lado a vender — senão fica mal.
A igreja matriz, de paredes caiadas e retábulo barroco, guarda painéis de azulejo do século XVIII — cenas bíblicas em azul e branco, ainda nítidas. Mais discreta, a capela de Nossa Senhora do Carmo ergue-se no alto de Aldeia Nova, ermida setecentista onde, no primeiro domingo de setembro, a procissão sobe em silêncio, ao ritmo dos cânticos e do arrastar de chinelos na gravilha. Nos cruzeiros de pedra espalhados pelos caminhos, o musgo cresce nas juntas do granito, marcando os séculos que passaram desde que foram levantados. E sim, o cruzeiro do Valongo é mesmo aquele onde o teu avô se sentava a descansar depois de trazer as cabras do pasto — não foi preciso IA para te lembrar disso.
Sabores da serra e do fumeiro
Na cozinha de Orjais, tudo é temperado com azeite da Beira Interior DOP — de acidez baixa e sabor a tomate verde — e com o tempo necessário. A chanfana de bode coze em panela de barro negro, dentro do forno a lenha, até a carne se desfazer sozinha. As migas de espargos silvestres, apanhados na Primavera nos terrenos de pasto, chegam à mesa com o verde vivo ainda a fumegar. No Inverno, é a vez do queijo Serra da Estrela DOP e do requeijão — feitos à mão na queijaria Quinta do Vale, onde se pode ver o leite a coalhar e provar a massa ainda morna, cremosa e ligeiramente ácida. A morcela de arroz pende das trave do fumeiro, ganhando sabor a fumo de castanheiro, e reaparece nas mesas acompanhada de broa escura. E se fores à Quinta do Vale, pergunta pela D. Albertina — ela explica-te como se faz o queijo melhor do que qualquer livro. E não te esqueças de levar um tabuleiro, senão levas o requeijão na mão.
Caminhos de silêncio e altitude
Orjais pertence ao Parque Natural da Serra da Estrela e ao Geopark Estrela, território onde os afloramentos de quartzito contam a história da orogenia varisca — a colisão de continentes que ergueu estas montanhas há trezentos milhões de anos. O trilho circular de Orjais a Valongo, oito quilómetros entre carvalho-alvarinho e olival, passa por um miradouro natural sobre a Cova da Beira: ao fundo, o vale desenrola-se em tabuleiros verdes e ocres, pontuados por aldeias brancas. De manhã cedo, é possível avistar o milhafre-real a planar em círculos largos, ou o cortiçol-de-dorso-malhado a saltar entre os ramos baixos. Mas olha, se fores no verão, leva água — não é o Algarve, aqui o sol queima mesmo. E se encontrares o Sr. Domingos no caminho, ele conta-te como era o trilho antes de ser "oficial". Spoiler: era o mesmo, mas sem placas.
O Caminho Interior de Santiago atravessa a freguesia, etapa entre Covilhã e Unhais da Serra. Os peregrinos param na Casa do Povo para carimbar a credencial, bebem água fresca da fonte junto à ponte medieval — um arco perfeito de pedra sobre a ribeira — e seguem pelo caminho de terra, ladeado por muros de xisto onde o narciso-do-monte floresce em Março, amarelo-vivo contra o cinzento da pedra. E se estiveres com sorte, apanhas o dia em que a D. Rosa tem bolos de balú no forno — não digas que não te avisei.
Tecer o tempo
Na oficina de tecelagem aberta ao Natal, as mãos ensinam o gesto antigo: lançadeira, pente, urdidura. As cintas de lã coloridas que saem do tear — vermelhas, azuis, riscadas — são as mesmas que Manuel Matias teceu durante décadas, até 2003, mantendo viva uma técnica que hoje se guarda em museus. Aqui, porém, o tear ainda range, o fio ainda corre entre os dedos, e o padrão repete-se — linha a linha, como os dias em Orjais. E se quiseres experimentar, calma — o tear não perdoa. A D. Lurdes já viu migos estragar um dia de trabalho porque puxaram para o lado errado.
Ao fim da tarde, quando o último peregrino já desapareceu na curva do caminho e o forno comunitário arrefece, fica o cheiro a lenha preso nas roupas e o som da água na ribeira, contínuo e baixo, a correr sobre as pedras lisas. E se ficares até à noite, vais ouvir o cão do Zé a ladrar para a lua — é o mesmo cão que ladrava para o teu avô, há trinta anos. Algumas coisas não mudam. Felizmente.