Artigo completo sobre Ourondo: 299 Habitantes Entre a Serra e o Silêncio
Freguesia da Covilhã onde os trilhos da Via Lusitana cruzam produtos DOP e o Geopark Estrela
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O som dos passos na terra batida soa mais alto do que devia. Aqui, onde se respira o mesmo ar que os 299 vizinhos — contei-os no café, quando o António desatou a chamar nomes à saída da missa — o silêncio pesa. Não é ausência; é o tempo que sobra. Ourondo agarra-se aos 389 metros de altitude como quem segura o xaile ao vento da serra. Quem desce da EN 233 para a rua principal sente o cheiro a borra de café misturado com o pão que a Rosa tira do forno às quartas e aos sábados.
No limite da Serra
Os caminhos de terra que saem da aldeia não têm nomes de marcação: são os mesmos que os pastores usam desde que o meu avô era menino. A pedra de xisto não é “paisagem” — é o muro que cai em cima da horta do Sequeira, o chão da adega onde ainda se prensa uva com os pés. No miradouro da fita, onde o GPS perde sinal, o olhorão sobrevoa antes de descer à Cova da Beira; à direita, a Torre esconde-se atrás do espinheiro que o Joaquim podou ao contrário.
O Interior de Santiago passa aqui, mas os peregrinos raros param. Quando param, dormem na casa da Amélia — ela deixa um bolo de laranja em cima da mesa e cobra o que acham justo.
Território de Sabores Certificados
O queijo não vem embrulhado em papel celofane: é retirado do salgueiro à mão, ainda quente, e se não o comeres com pão de forma caseira o Zé Costa leva a mal. O requeijão é servido na tigela de barro que a mãe da D. Lurdes herdou. O azeite, sim, tem DOP, mas o que importa é que o lagar do Valverde abre só em Dezembro: quando o trator descarrega as caixas, o cheiro da primeira moagem entra pelas janelas da escola primária (agora biblioteca, porque as crianças foram para a Covilhã).
Em Maio, as cerejeiras da Levenda parecem nevoeiro; em Junho, sobe-se ao cesto e prova-se a fruta antes de a medirem para a caixa. Quem as compra em Lisboa paga o dobro; quem as colhe aqui leva o suco nos dedos o dia inteiro.
O Ritmo de Quem Fica
Dos 299, 145 têm bilhete de pensionista e 14 ainda vão às aulas. Os restantes estão no cemitério ou no estrangeiro. Mesmo assim, ao fim-de-semana o café enche-se: volta quem foi para França, voltam os filhos que estudaram fora, e alguém sempre põe o acordeão na mala. Há dois sítios para dormir — o hostel antigo (o prédio onde funcionou a cooperativa do leite) e a casa da família que comprou a quinta abandonada; têm piscina, mas a água vem da mina e em Agosto está gelada.
Às sete da tarde, quando o sino da igreja martela sete vezes — a campainha tem falha na terceira — ainda se vê fumo das duas chaminés que restam. Ourondo não promete nada. Oferece é isto: o pão que a Rosa tirou do forno, o cheiro a estiércil se o vento vira, a pedra que esquenta os pés depois do jantar. Quem fica já não conta os anos: conta as colheitas que ainda pode fazer.