Artigo completo sobre Paul: Cereja, Borrego e Montanha na Cova da Beira
Freguesia da Covilhã aos pés da Serra da Estrela, entre pomares certificados e tradição rural
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O caminho desce entre muros de xisto onde o musgo se agarra ao que o tempo foi deixando. Aqui, no sopé da encosta que sobe em direcção à Serra da Estrela, Paul respira ao ritmo da Cova da Beira — terra onde a primavera cheira a flor de ameixoeira e o verão traz o peso quente da fruta madura. O ar traz o cheiro a terra regada, e ao longe, a montanha ergue-se como quem vigia, limite vertical de um vale que se abre generoso.
Com pouco mais de 1300 habitantes, esta freguesia da Covilhã mantém um pulso próprio. A Igreja Matriz sobe-se à vista antes de se chegar ao lugar — o seu campanilho de xisto aponta o céu desde 1749. Ainda hoje, os sinos marcam a hora e as missas dominicais juntam os poucos que ficaram.
A cereja que mancha as mãos
Em Junho, as cerejeiras da Cova da Beira dão fruta que estoura na boca e mancha os dedos de vermelho. Nos quintais, as mulheres estendem os lençóis ao sol e os homens regam as hortas às seis da manhã, antes que o calor apertar. O Borrego Serra da Estrela, criado nas encostas próximas, cheira a montanha e a alecrim quando coze no forno de lenha da Dona Ilda — ela que ainda faz pão nas horas mortas da tarde, com farinha do moinho de Teixoso.
O requeijão da Serra, que se come com colher de pau, tem o sabor ligeiramente azedo que só o leite de ovelha Bordaleira dá. E o queijo — esse pede-se com gestos: "um pedaço daquele mais curado, ó Zé".
O granito que fala
Paul integra a área de influência do Parque Natural da Serra da Estrela, e isso nota-se. O granito aflora em penedos arredondados onde as crianças sobem descalças. O frio desce mais cedo — em Outubro já se sente na ponta dos dedos. Pertence ao território do Geopark Estrela, mas os velhos dizem que é o xisto é que conta a história verdadeira: cada casa, cada muro, cada escadaria que levava ao campo.
Quem percorre o Caminho de Santiago — variante da Via Lusitana — passa por aqui em silêncio. Alguns param na fonte da Aldeia Nova para encher a garrafa. Outros perguntam onde se come. "Há um café na rotunda, mas abre às três da tarde", diz o Sr. Joaquim, que se senta ao sol na banca da Igreja todos os dias, se chova ou faça sol.
O que fica
Com 494 idosos e apenas 112 jovens, Paul conhece o desequilíbrio na pele. Mas resiste. Há uma casa de alojamento local onde se dorme sob lençóis de linho e se acorda com o canto dos passarinhos. Há dois monumentos classificados — a Igreja e a Capela de São Sebastião — mas o verdadeiro património são os caminhos de terra batida que levam aos pomares, onde ainda se planta a batata e se colhe a couve-manteiga.
A elevação média, 476 metros, coloca Paul numa posição intermédia — nem planície, nem montanha. Do cimo da Rua do Calvário, o olhar alcança: os telhados de xisto, as cerejeiras em flor, a Serra que nasce nevoeiro e acaba neve.
Fica-se em Paul com o sabor da água fresca da fonte, com o peso do pão de centeio na mão, com o silêncio que só se enconstra onde o tempo não tem pressa.