Artigo completo sobre Peraboa: onde a fruta da Cova da Beira dita o calendário
Freguesia serrana a 491 metros, entre olivais DOP e pomares de cereja que colorem os socalcos
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O cheiro a lenha queimada mistura-se com o aroma terroso das oliveiras quando a manhã irrompe sobre Peraboa. A 491 metros de altitude, esta freguesia estendida por 2720 hectares de encosta respira ao ritmo da Cova da Beira — território onde os pomares ditam o calendário e onde o Parque Natural da Serra da Estrela desenha o horizonte norte como uma sentinela de granito.
Oitocentas e dezassete pessoas habitam este território disperso, onde a densidade de trinta almas por quilómetro quadrado permite que o olhar se estenda sem tropeçar em betão. As casas espalham-se entre os socalcos, entre cerejeiras e pessegueiros que explodem em flor na Primavera e vergam sob o peso da fruta no Verão. A luz da Beira Interior — essa claridade quase cirúrgica que recorta cada folha, cada muro de xisto — banha os campos onde a tradição agrícola persiste teimosamente, resistindo ao êxodo que deixou marca: 298 idosos para apenas 73 jovens.
Entre o azeite e o queijo
A identidade de Peraboa escreve-se na mesa. Os olivais velhos produzem o Azeite da Beira Baixa DOP, de acidez contida e sabor frutado, enquanto a Azeitona Galega da Beira Baixa IGP — pequena, arroxeada, de polpa firme — tempera as refeições de Inverno. Nas prateleiras das despensas, o Queijo Serra da Estrela DOP convive com o Requeijão Serra da Estrela DOP, ambos testemunhos da pastorícia que ainda marca presença nos baldios. O Cabrito da Beira IGP assa-se em fornos de lenha, acompanhado por batatas que absorvem a gordura aromática, enquanto o Borrego Serra da Estrela DOP reserva-se para os domingos solenes.
Mas é a fruta que define verdadeiramente o território. A Cereja da Cova da Beira IGP — também protegida sob o selo específico de Cereja do Fundão IGP — pinta de vermelho os pomares em Junho. Seguem-se o Pêssego da Cova da Beira IGP, de polpa sumarenta que escorre pelos dedos, e a Maçã da Cova da Beira IGP, que se colhe quando o Outono já esfria as manhãs. A região vinícola da Beira Interior completa o retrato: vinhas plantadas em solos pobres mas expostas a amplitudes térmicas que concentram açúcares e acidez nos bagos.
Nos limites do Geopark
Peraboa integra o território do Geopark Estrela, classificado pela UNESCO em 2020, onde a geologia conta 600 milhões de anos de história gravada em xisto e quartzo. A proximidade ao Parque Natural da Serra da Estrela (criado em 1976) convida a caminhadas que sobem até aos 491 metros da freguesia e prosseguem para cotas superiores, onde o ar rarefeito queima os pulmões e o silêncio só é interrompido pelo assobio dos milhafres.
O Caminho Interior do Caminho de Santiago — também conhecido como Via Lusitana — atravessa este território desde 2017, trazendo peregrinos que caminham com a mochila às costas e o bordão na mão. Passam pelas aldeias dispersas, cumprimentam os idosos sentados à porta, enchem os cantis nas fontes de pedra. Na Rua Principal, duas moradias recuperadas — Casa da Oliveira e Quinta do Vale — acolhem quem procura descanso longe das grandes rotas turísticas, oferecendo o conforto básico de quem entende que o luxo, aqui, é acordar com o canto do galo e adormecer sob um manto de estrelas que a poluição luminosa não consegue apagar.
O peso do quotidiano
A vida em Peraboa não se romantiza facilmente. As ruas estreitas e irregulares denunciam a idade do povoamento — a Igreja Matriz de São Tiago é do século XVI, mas a maioria das habitações remonta ao boom da cortiça dos anos 1950. Os muros precisam de cal nova, as hortas exigem trabalho diário. Os jovens partem para a Covilhã (a 12 quilómetros) ou para Lisboa, deixando casas fechadas que o tempo vai reclamando lentamente. Mas nos domingos de feira mensal, ou quando chega a época da apanha em Junho-Julho, a freguesia reanima-se: mãos calejadas enchem caixas de fruta nos armazéns da Cooperativa Agrícola fundada em 1962, tractores John Deere sobem e descem as encostas, vozes trocam informações sobre preços e colheitas.
O sol poente incendeia os telhados de telha quando o dia termina. As sombras alongam-se sobre os pomares, e o frio da noite — esse frio seco da Beira Interior que penetra pelos casacos — começa a instalar-se. Ao longe, a silhueta da Serra da Estrela recorta-se contra o céu alaranjado, lembrando que Peraboa vive sempre sob o olhar dessa sentinela de pedra.