Artigo completo sobre Peso: Onde o Xisto Guarda os Sabores da Beira Interior
Freguesia da Covilhã a 479 metros, entre vinhedos, queijarias e pomares certificados da serra
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O xisto escuro das casas absorve o calor da tarde, devolvendo-o em ondas que se sentem na pele enquanto o ar traz o fumo dos fumeiros - não é lenha de carvalho qualquer, mas a que se guarda durante o ano inteiro para fazer o fumeiro do porco. Peso fica mesmo a entrada da serra, a 479 metros, onde a terra deixa de ser plana e começa a subir. São 628 pessoas em dez quilómetros quadrados, mas quem cá vive sabe que o território é maior - estende-se até onde se ouvem os cães ladrar à noite e onde as mulheres reconhecem os passos dos vizinhos nas estradas de terra.
A geografia do sabor
O vinho faz-se nas socalcos que o avô cavou à mão, onde o granito se parte com a enxada e as uvas sobrevivem aos verões quentes. Mas é o queijo que marca os dias: quando o cardo florido chega em Junho, as mulheres de Peso poem-se a fazer o queijo com leite da manhã, antes que o sol aqueça demasiado as ovelhas. O requeijão sai cremoso às quartas e sábados, dias de feira na Covilhã, e leva-se numa gamela coberta com pano de algodão.
Nos pomares, as cerejas aparecem primeiro nos pessegueiros mais velhos, os que ficam perto das casas - os que têm troncos grossos que as crianças sobem. A maçã que aguenta até Abril guarda-se numa cave que o pai construiu debaixo da casa, onde o frio é constante como numa igreja. O azeite vem das oliveiras centenárias que sobreviveram à geada de 45, e o cabrito é mesmo daqui - pastando nas encostas onde se planta batata depois da Páscoa.
Entre o granito e a água
O Parque Natural começa logo acima da aldeia, mas quem é de Peso não precisa de mapas para saber onde acaba a terra de cultivo e começa a serra. Basta ver onde os muros de xisto dão lugar aos barrocais, onde o pinheiro manso cresce entre os graniteiros. O inverno traz neve algumas vezes, mas nunca fica muito tempo - derrete na véspera e escorre pelos caminhos abaixo, formando ribeiros que só correm no Inverno.
O Geopark é um nome novo para o que aqui sempre existiu: pedras com formas estranhas que os avós chamavam "pedras de gigante", quartzite que faisca quando se bate com aço, o xisto que se parte em lajes para cobrir os telhados. A Ribeira de Peso leva água o ano todo - mesmo no Verão mais seco, há sempre um charco onde os miúdos se atiram de roupa interior.
O caminho que atravessa
O Caminho de Santiago passa aqui desde sempre, mas agora traz peregrinos com bengalas modernas e mochilas que parecem estar a ir para o espaço. Param na fonte da Vila, onde a água é fria mesmo em Agosto, e perguntam se há café - não há, mas há água e há sempre alguém que lhes indica o caminho para o Paul ou para o Sabugueiro.
Os 202 idosos conhecem-se todos pelos nomes, e os 63 jovens saíram mas voltam aos fins-de-semana. Às seis da tarde, quando o sol desaparece atrás da serra, as mulheres juntam-se à porta do Minimercado e falam sobre quem está doente, sobre quem casou, sobre quem veio de França. Os quintais mantêm-se como eram: a figueira serve para fazer compota e para as crianças brincarem de esconde-esconde, a vinha dá uvas para o vinho da casa e folhas para enrolar o galo quando há casamento.
A luz muda depressa. De manhã, o nevoeiro sobe do Zezere e cobre tudo - as casas parecem barcos ancorados. Ao meio-dia, o xisto quente queima os pés descalços. Ao entardecer, quando o sino da igreja toca para os mortos (todos os dias às sete), as sombras estendem-se pelos caminhos e o cheiro a lenha queimada lembra que é hora de jantar. O queijo que se tirou da forma à tarde está já a escorrer no tampo da mesa de madeira, e o pão - esse vem do forno do Telhado, onde se leva a massa numa tigela de barro toda as quartas-feiras.