Artigo completo sobre Unhais da Serra: Termas e Vales Glaciares na Beira
Vila termal a 1300 metros de altitude com nascentes quentes e vale glaciário de cinco quilómetros
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O vapor sobe em espirais lentas das nascentes termais, como se a serra estivesse a fumar um cigarro esquecido. A água brota a trinta e sete graus - quente como o café que o Zé Manel serve no bar da praça, só que com mais bicarbonato e menos açúcar. A três dezenas de anos, vinham cá os doutores da Covilhã mandar os ricos tomar banhos. Hoje, quem desce a EN 233 é mais para caminhar ou para fugir ao calor da cidade.
O nome que ninguém sabe soletrar
Unhais - com "h" que ninguém lhe pediu - deve o nome a uma tal Hunila que por cá andou no século XII. Dizem que era moura, dizem que era judia, o certo é que lhe deram uma quinta que hoje é uma freguesia inteira. A igreja de Santo Aleixo lá no meio é como aquele tio que se senta à cabeceira da mesa: já lá está desde 1699 e ninguém se atreve a mudá-lo de sítio.
O vale que a praia
O Vale Glaciário da Alforfa é um sanduíche de rochas que a natureza fez ao contrário: o pão preto em cima, o recheio de granito lá em baixo. A Ribeira da Alforfa corre no fundo como quem tem pressa de chegar a lado nenhum, e onde ela faz curva nasceu a praia fluvial. No Verão, está lá o Nuno com o bar aberto e os amendoins são os mesmos desde 1995. O miradouro do Cruzeiro é o sítio onde os namorados vão discutir e os turistas tirar fotos que depois dizem que são de Suíça.
O que se come (e o que se bebe)
O Queijo Serra da Estrela que a D. Amélia faz na Quinta do Chão da Vinha é daqueles que fazem os olhos fechar de prazer - mas cuidado com a bica que vem depois, porque senão o coração salta dos peitos. O borrego vai ao forno de lenha do restaurante oito e meia, e se chegar antes das oito ainda apanha o pão a sair. A chanfana é como a sogra: ou se gosta ou se foge, mas ninguém fica indiferente. Em Janeiro, em Unhais-o-Velho, o bodo de São Sebastião distribui castanhas e vinho como se o mundo acabasse amanhã - e pelas nove da noite, metade da aldeia já acredita que vai.
As termas que ninguém queria
O Grande Hotel está ali, todo ele a lembrar um avô esquecido na cadeira: janelas pintadas de branco, terraços que já viram dias melhores. Dizem que vai ser hotel outra vez, dizem que vai ser lar, dizem tantas coisas que até o prédio se cansou de ouvir. Mas as águas continuam a jorrar, e quem se deita na piscina térmica ainda ouve os bones da Covilhã a discutir futebol nos balneários. A sete quilómetros, a Torre marca os dentes ao vento, e quando se desce das pistas com as pernas a tremer, nada como mergulhar nas águas quentes para se lembrar porque é que se gosta de estar vivo.
No fim de contas, Unhais é como aquele amigo que não vemos há anos: quando encontramos, damos conta que ele não mudou nada - e que até faz bem à alma que as coisas sejam assim.