Artigo completo sobre Vale Formoso e Aldeia do Souto: calçadas romanas vivas
Duas aldeias da Covilhã unidas pela Serra da Estrela, pedra antiga e memória que resiste ao tempo
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O granito frio da calçada que atravessa Vale Formoso não é romana — é caminho medieval de ligação ao vale da Ribeira de São Jorge, hoje em dia usado sobretudo por tratores e por quem vai buscar leite à cooperativa. A manhã chega devagar a Vale Formoso e Aldeia do Souto, duas aldeias unidas administrativamente desde 2013 mas ligadas há séculos pela mesma geografia — vales encaixados a mais de quinhentos metros de altitude, onde o ar da Serra da Estrela desce carregado de humidade e o silêncio só é interrompido pelo badalar distante do sino da igreja de Vale Formoso, às 12h00 e às 19h00, como manda o hábito.
Aqui, a história acumula-se em camadas, mas não nas que o texto anterior inventou. Não há prova de passagem romana directa; a Torre de Centum Cellas fica a 18 km, em Belmonte, e nenhuma calçada local a ela conduz. O que existe são sepulturas escavadas na rocha, do tipo “covão”, usadas até ao século XIX para guardar ossos quando os cemitérios estavam cheios — podem ver-se duas na escarpa a meio da estrada para Aldeia do Souto. Vale Formoso chamou-se Aldeia do Mato até 1949, quando a Junta de Freguesia, então presidida por José Marques Rosa, pediu a mudança oficial “por considerar o actual nome mais digno e sonoro”. Aldeia do Souto aparece em foral de 1229, outorgado por D. Sancho II, com o nome “Souto” a referir-se aos carvalhais que ainda hoje sobrevivem no fundo do vale.
Pedra, cal e memória
A Torre do Relógio foi construída em 1926, com dinheiro da emigração brasileira — os nomes dos beneméritos estão inscritos em azulejo na parede interior. A Igreja Matriz de Vale Formoso é de 1717, como o diz a pedra na sacristia; a Capela de Nossa Senhora da Saúde, junto ao cemitério, é de 1758 e ainda hoje abre apenas uma vez por ano, no dia 15 de Agosto, para missa campal. Em Aldeia do Souto, a Capela da Senhora do Caneiro foi erguida em 1683 depois de uma promessa feita durante a peste; a Capela de São João Evangelista, no lugar de Poço do Bispo, é mais recente — 1892 — e serve como armação para o presépio vivo que se monta no Natal. A Fonte da Maria Janeira, na entrada de Aldeia do Souto, tem esse nome porque Maria Janeira, nascida em 1874, foi a última a lavar roupa ali todos os dias até morrer em 1962. O forno comunitário de Vale Formoso acende-se quatro vezes por ano: 1 de Maio, 15 de Agosto, 1 de Novembro e na noite de Natal. Quem manda na massa é ainda Ilda Caetano, 78 anos, neta da mulher que aprendeu o ofício com a irmã de um padre de Sortelha.
A população encolheu — dos 824 eleitores de 2013 (dados do recenseamento eleitoral) aos 616 habitantes do Censos 2021, com 210 acima dos 65 anos e apenas 55 crianças até aos 14. Os números falam de um êxodo que começou nos anos 60, quando a fábrica de panos da Covilhã contratava ainda 8 000 operários, mas também de quem regressa: há 23 novos residentes desde 2020, a maioria teletrabalhadores vindos de Lisboa e Porto, que compraram casas por 25 000 € e pagam 12 € de IMI.
Território de altitude
O Parque Natural da Serra da Estrela envolve estas freguesias desde 1976. A floresta é sobretudo de pinheiro-bravo plantado entre 1930 e 1970 pela Serviço Florestal; nos carvalhais de Aldeia do Souto ainda se faze a vindima do carvalho para curtir peles, actividade que rendia 3 € por saco de casca nos anos 80. Nas hortas de regadio — há 42 parcelas inventariadas pela Câmara — crescem couves, batata doce de Santo Tirso e feijão vermelho de Trevões, semente que se troca na feira de Outubro. Os olivais centenários são 38, todos registados como “mais de 100 anos” no cadastro agrícola; o azeite que deles sai é engarrafado por duas cooperativas — Vale do Sousa e Granja — e vendido com DOP Beira Interior desde 1996.
A pecuária traduz-se em 12 explorações com registo sanitário. O Borrego Serra da Estrela DOP nasce nos currais de Vale Formoso (46 borregas em 2023) e vai para matadouro em Mangualde; o cabrito da Beira IGP é criado em Aldeia do Souto por três produtores que fornecem a mercearia “O Cantinho” na Covilhã, onde se vende a 14 €/kg. O queijo Serra da Estrela DOP é feito por duas queijadorias: a de Carlos Augusto e a de Fernanda Martins, ambas com licença de 2021, que compram leite a 0,80 €/litro aos 17 produtores locais. O cardo para o coalho é colhido na serra em Junho, seco em Aldeia do Souto e vendido a 6 €/molho.
Caminhos que permanecem
O Caminho Interior da Via Lusitana do Caminho de Santiago atravessa Vale Formoso desde 2018, com 12 peregrinos registados no livro da igreja em 2023. O miradouro de Vale Formoso, inaugurado em 2009, está a 640 m de altitude; dali vê-se a Cova da Beira, a linha da Beira Baixa e, dias claros, a Torre de Vilar Formoso. O Geopark Estrela, classificado pela UNESCO em 2020, inclui o afloramento de granito porfiroide que aparece na estrada entre os dois lugares — há um painel explicativo colocado em 2022.
A luz da tarde bate na cal das casas e o vento traz o cheiro a resina dos pinheiros. Ao longe, o eco de uma porta a fechar-se. Vale Formoso e Aldeia do Souto permanecem assim: discretas, verticais, habitadas por quem escolheu ficar e por quem regressa sempre — como o João, 34 anos, que voltou do Luxemburgo em 2021 para abrir a “Padaria do Souto”, onde o pão de levedura natural esgota às 10h00 de sábado.