Artigo completo sobre Verdelhos: vinha e xisto a 827 metros de altitude
Freguesia de montanha na Covilhã onde a Via Lusitana cruza pomares de cereja e casas de granito
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A encosta acorda coberta de orvalho frio. A 827 metros de altitude, o ar chega aos pulmões com aquela densidade húmida da montanha, carregado do cheiro a terra molhada e a resina dos pinheiros que marcam a paisagem. Verdelhos estende-se pela vertente como quem se agarra ao declive, as casas de xisto e granito dispostas em socalcos onde a vinha ainda resiste — não é produção para garrafas de 30 euros, é vinho de ramo para a mesa de domingo, feito no lagar do Zé ou do António, que ainda mantêm umas vinhas velhas porque «dá jeito» e porque «sempre se fez assim».
Quinhentas pessoas habitam estes 3649 hectares que sobem até aos limites do Parque Natural da Serra da Estrela. A densidade de 13,7 habitantes por quilómetro quadrado traduz-se em silêncios longos entre casas, em caminhos de terra batida onde só se ouve o vento nas árvores e, ocasionalmente, o sino da igreja a marcar as horas. Das 500 almas, 183 ultrapassaram os 65 anos — contra apenas 36 crianças. Os números dizem o que toda a gente sabe: os jovens foram para a Covilhã, para Lisboa ou para França, e quem fica são os pais e os avós que ainda cortam lenha e mantêm os pomares como quem mantém uma promessa.
Rota de peregrinos e cerejas do vale
A Via Lusitana do Caminho de Santiago atravessa estas terras. O trilho interior corta a freguesia, trazendo peregrinos que sobem a encosta com o peso da mochila e a cadência lenta de quem caminha há dias. Não há albergues nem infraestruturas turísticas — há a pastelaria da D. Lurdes que abre às 7h e fecha quando os pasteis acabam, e há a casa do Sr. Joaquim que aluga dois quartos atrás da igreja, mas só se lhe telefonarem com antecedência. «Quem vem aqui não vem por comodidade», diz ele, «vem porque quer mesmo passar».
Verdelhos integra o território da Cereja da Cova da Beira IGP, mas não pense o leitor em pomares organizados e lojas de souvenirs. As cerejas nascem nos quintais descuidados, sobem para Covilhã em caixas de papelão, e metade acaba em compotas caseiras que as avós vendem à porta da igreja domingo sim, domingo não. O queijo é mesmo Serra da Estrela DOP, mas é comprado ao Sr. Albano que faz na cave de casa, tem de ser encomendado com três dias de antecedência, e vem embrulhado em papel de alumínio como se fosse contrabando. O borrego é do vizinho, o azeite vem das oliveiras do outro lado da estrada, e se pedir água no café, leve garrafa própria — «aqui ainda se bebe daquela que vem da mina».
Pedra, altitude e geoparque
A freguesia faz parte do Geopark Estrela, classificado pela UNESCO. Na prática, isto quer dizer que há placas com QR codes que ninguém lê e que os estrangeiros que aparecem de mochila e bengala perguntam onde é que está o centro de interpretação. «O centro de interpretação é o caminho», responde-lhes o Sr. Joaquim, apontando para a encosta. Caminhar por Verdelhos é mesmo isso: é ir pisando xisto solto, passar por muros que já foram sebes, ver a marca das lâminas de neve antiga nas pedras e perceber que o tempo aqui não se conta em séculos — conta-se em invernos.
A luz da tarde poente bate de lado nas fachadas de pedra, acentuando as texturas irregulares do xisto empilhado sem argamassa — porque antigamente não havia cimento, havia paciência. Ao longe, as linhas horizontais dos socalcos desenham a persistência humana na montanha. O frio desce depressa quando o sol desaparece atrás do cume, e o fumo das lareiras começa a subir das chaminés — cheiro a lenha de carvalho que se mistura com o ar gelado da noite que chega. Se ficar até aqui, leve um casaco grosso. E não espere restaurantes — mas se bater à porta da casa da D. Alda, ela arranja-lhe uma sopa de feijão e um bocado de broa. Só não lhe peça conta.