Artigo completo sobre Alcongosta: azeite DOP e cerejas nos socalcos da Beira
Aldeia no Fundão onde os peregrinos cruzam pomares certificados e lagares centenários a 679 metros
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O sol da manhã entra oblíquo pelas janelas das casas de pedra, desenhando rectângulos de luz quente sobre o chão irregular. Nas ruas de Alcongosta, o silêncio é pesado — não é vazio, mas preenchido pelo murmúrio distante de água nas levadas que ainda levam água aos quintais, pelo estalar seco de um ramo de oliveira, pelo arrastar lento da porta do Sr. António que vai buscar o pão. A 679 metros de altitude, a aldeia respira ao ritmo da Beira Interior: pausado, sem pressa, medido pelo sol que percorre o céu sobre os olivais que sobem e descem as encostas.
Onde a terra dá fruto certificado
Esta é uma das freguesias mais pequenas do Fundão — 416 habitantes que se conhecem todos, distribuídos por 731 hectares —, mas o que lhe falta em dimensão sobra-lhe em terra que produz sem truques. Aqui, o Azeite da Beira Interior DOP escorre espesso dos lagares que ainda funcionam em Dezembro, a Azeitona Galega da Beira Baixa IGP amadurece nos ramos tortos, e nos pomares as cerejas da Cova da Beira IGP rebentam vermelhas e lustrosas em Maio, quando os estrangeiros começam a chegar para as colheitas. As vinhas, dispostas em socalcos que doem nas pernas, integram a região vinícola da Beira Interior, e no Verão os pêssegos e as maçãs IGP pesam nos ramos, prontos para as caixas que vão para Espanha e França.
A gastronomia é o que há. O cabrito da Beira IGP assa lentamente em fornos de lenha no restaurante do Zé, regado com azeite que ele mesmo produz — o cheiro agarra-se à roupa durante dias. Na Páscoa, as filhós fazem-se em casa, com a massa a crescer de manhã para estar pronta à tarde. No Natal, os coscoréis esfriam sobre toalhas de linho na mesa da cozinha, e ninguém resiste a um ainda quente.
Pegadas no caminho de Santiago
Alcongosta integra o Caminho Interior de Santiago, na variante da Via Lusitana. Os peregrinos atravessam a aldeia com as botas cobertas de pó ocre, param no café para um galão e perguntam se há sítio para dormir. Seguem depois em direcção à Serra da Gardunha, cujo perfil se recorta a norte como um dente partido. Não há multidões, nem lojas de souvenirs — apenas a estrada de terra batida que sobe entre muros de xisto onde cresce salsa-brava, o canto esporádico de um melro, a sombra curta de uma oliveira centenária que já viu passar gerações.
A paisagem é trabalho: azenhas onde a água ainda move pedras gastas, lagares abandonados que cheiram a azeitona apodrecida quando chove, vinhas que se agarram ao declive como podem. A proximidade da Serra da Estrela empresta ao ar uma frescura que se sente nas manhãs, mesmo em Agosto, quando o calor aperta no vale e as pessoas regressam dos campos às sete da manhã.
O peso do fruto maduro
Em Alcongosta, o tempo mede-se por colheitas. No Verão, o cheiro a pêssego maduro é tão intenso que se sente na boca; no Outono, o aroma a mostro que fermenta nas adegas entranha-se nas paredes; no Inverno, o fumo das lareiras sobe direito no ar imóvel da manhã. A aldeia não tem festas ruidosas nem romarias — a sua autenticidade está naquele silêncio depois do almoço, quando só se ouvem as máquinas da fábrica da Frulact lá em baixo, no peso de um fruto maduro na palma da mão que já sabe que vai ser o último da época.