Artigo completo sobre Alpedrinha: da calçada romana ao Tratado de Tordesilhas
Vila na Serra da Gardunha que viu nascer o Cardeal que dividiu o mundo e guarda o teatro mais antigo
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O sol ainda não aqueceu as fachadas de granito quando o sino da torre bate as sete. Na encosta sul da Serra da Gardunha, a luz rasante da manhã desenha sombras compridas sobre a calçada romana — pedras polidas por séculos de pés descalços de escuteiros, cascos de burros, rodas de carroça que ainda hoje trazem lenha. O ar frio da altitude traz o cheiro a lenha de carvalho dos primeiros lumes, misturado com o aroma doce das cerejeiras que ainda guardam orvalho nos ramos. Alpedrinha desperta devagar, como quem sabe que a pressa não faz parte da geografia.
Quando o mundo se media em tratados
A vila viu nascer D. Jorge da Costa, o Cardeal de Alpedrinha, figura que a tradição associa ao Tratado de Tordesilhas. Difícil imaginar que desta encosta, a 428 metros de altitude, partisse um homem capaz de riscar uma linha no Atlântico. Mas Alpedrinha sempre foi mais do que a sua aparência discreta sugere. A Marquesa de Alorna, que aqui passava verões, chamou-lhe "Sintra das Beiras" — talvez por causa do palacete onde se hospedava, talvez pelo ar úmido das tardes de Verão que fazem crescer musgo nas paredes.
O palácio que nunca foi acabado
O Palácio do Picadeiro ergue-se no centro como uma promessa interrompida. Obra setecentista que nunca chegou a ser concluída, serviu de casa a órfãos, depois de tribunal — onde o meu avô testemunhou acerca de um limite de terra — e até de escola primária onde aprendi a escrever. Hoje, convertido em espaço museológico, guarda a memória da marca dos móveis embutidos: é aqui que se vê como se fazem as costuras de madeira que parecem rendas. Junto à entrada, o Chafariz D. João V deixa correr água gelada — a mesma que minha avó ia buscar antes de nascer a canalização, e que ainda hoje serve para lavar os pés depois de andar pelos trilhos.
A poucos passos, o teatro de 1839 mantém-se como o mais antigo do distrito. As cadeiras rangem com o peso de gerações, o palco de madeira ainda cheira a bastidores de escola — foi aqui que fiz o meu primeiro papel de pastora nos festejos da vila. Não é um monumento imponente — é um espaço que ainda serve para as apresentações da escola e para os ensaios do coro.
Frutos certificados pela altitude
A Serra da Gardunha protege Alpedrinha dos ventos do norte, criando um microclima que explica a profusão de cerejeiras. Os pomares estendem-se em socalcos, organizados pelas mãos que aqui nasceram — a minha tia ainda consegue subir os degraus de pedra para colher as primeiras cerejas de Maio. Aqui crescem as cerejas que vão para o Fundão, os pêssegos de caroço solto que se comem ao balcão, e as maçãs que se guardam na cave até ao Natal. Nos olivais mais antigos, a Galega da Beira Baixa espera pela apanha de Novembro — é nessa altura que se faz o azeite novo, e se prova em fatias de pão caseiro ainda quente. O cabrito da Beira, assado em forno de lenha, cheira às quintas-feiras — é dia de mercado, e quem vai ao café da Dona Lurdes ainda o consegue provar.
Trilhos que vêm de longe
A calçada romana que atravessa a vila não é cenografia. É caminho real, usado por pastores que ainda hoje descem de Alcongosta com os rebanhos. Hoje, integra a Via Lusitana do Caminho Interior de Santiago — traz peregrinos que param no café para perguntar onde se pode comer sopa de cebola. Os trilhos rurais sobem pela Gardunha, passando pelo lugar onde se apanham cogumelos em Outubro — o meu pai levava-me lá de manhã cedo, com um canivete na mão e pão de milho no bolso.
Quando a tarde cai e as sombras voltam a alongar-se sobre o granito, o som que fica é o da água no chafariz — constante, como o tempo que não pressa ninguém.