Vista aerea de Bogas de Cima
DGT - Direcao-Geral do Territorio · CC BY 4.0
Castelo Branco · CULTURA

Bogas de Cima: olivais em socalco e lagares de pedra

Aldeia no Fundão onde a azeitona galega e os enchidos fumados definem o quotidiano a 620 metros

328 hab.
619.9 m alt.

O que ver e fazer em Bogas de Cima

Produtos com Denominação de Origem

Festas e romarias em Fundão

Junho
Festa da Cereja Último fim de semana de maio ou primeiro de junho festa popular
Festa de São João 24 de junho festa popular
Setembro
Romaria de Nossa Senhora dos Verdes Último domingo de setembro romaria
ARTIGO

Artigo completo sobre Bogas de Cima: olivais em socalco e lagares de pedra

Aldeia no Fundão onde a azeitona galega e os enchidos fumados definem o quotidiano a 620 metros

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O cheiro a azeite novo sobe da pedra do lagar, mas é o cheiro a terra molhada depois da primeira chuva que me traz a avó de cachecol de lã a convidar para dentro de casa. Em Bogas de Cima, a 620 metros de altitude, as azeitonas galega caem nos panos estendidos sob as árvores que o meu tio ainda poda com a serra de dois gumes — e o barulho surdo das mós de granito ecoa nas paredes caiadas que ele próprio calçou. Este é território de olivais que sobem em socalcos de xisto onde eu perdi um sapato de escola, de vinhas que se agarram à terra seca, de fumeiros onde o chouriço ganha cor ao longo dos meses — e onde a minha mãe ainda vai buscar água ao poço com o balde de alumínio. Trezentos e vinte e oito habitantes ocupam um planalto ondulado entre a serra da Gardunha e a cova da Beira — e quase metade tem mais de sessenta e cinco anos, como o Sr. António que me dava bolachas Maria na loja que já fechou.

O caminho que atravessa a aldeia

A Via Lusitana corta a freguesia em direcção ao Fundão, pisando terra batida entre muros baixos de pedra solta onde eu escrevia o nome com um pau. Este ramo interior português do Caminho de Santiago traz, de quando em quando, peregrinos que param na fonte a beber água que sabe a ferro — a que passa longe das multidões, atravessando aldeias onde ainda se lavra a terra com tracção animal, como o burro do Sr. Jaime que eu montava quando tinha seis anos. O topónimo faz par com Bogas de Baixo, cem metros mais abaixo, lembrando a divisão medieval de propriedades agrícolas segundo a altitude — e eu sempre soube que "cima" queria dizer mais frio e mais vento. Não há festa padroeira oficial, raridade na região, mas há uma densidade invulgar de edifícios anteriores a 1919 — quarenta e nove construções que resistem ao abandono e ao tempo, como a casa da minha avó onde ainda se coze no forno a lenha.

Mesa com selo europeu

Aqui come-se cabrito da Beira assado no forno de lenha que o meu pai ainda acende com papel de jornal, regado a azeite DOP da Beira Alta que escorre dourado sobre a carne tostada — e que eu lambia do prato quando ninguém via. Os enchidos caseiros — chouriço, farinheira, morcela — pendem dos varais nos fumeiros, ganhando sabor a fumo de carvalho que me faz tossir quando passo. No Inverno, a sopa de castanhas aquece as mãos frias; no Verão, as cerejas IGP da Cova da Beira transformam-se em compotas que a minha tia faz de madrugada para não sentir o calor. A maçã e o pêssego da mesma origem aparecem em bolos de fruta que acompanham o café que bebo na chávena rachada do meu avô. À mesa, o vinho tinto da Beira Interior — trincadeira de tanino firme que me fez cuspir na primeira vez — lava o fumeiro e prepara o estômago para as migas com azeite que eu faço com as sobras do pão.

Trilhos entre olivais e vinhas

A paisagem abre-se em vistas amplas: a serra da Estrela recorta-se a oeste, a serra de São Mamede desenha-se a sul — e eu sei que é dia de neve quando as nuvens se agarram ao cume. Entre oliveiras retorcidas pelo vento e vinhas em socalcos, os caminhos de terra ligam Bogas de Cima a Bogas de Baixo e ao Fundão, percursos pedestres curtos onde se vêem grifos a planar, perdizes a correr entre o esteval e raposas ao crepúsculo — e onde eu fui mordido por um javali quando tentava apanhar cogumelos. Em Junho, a quinze minutos de carro, os cerejais da cova cobrem-se de branco — e eu sei que é hora de roubar cerejas do quintal do Sr. Domingos. Entre Novembro e Janeiro, os lagares artesanais abrem as portas — é possível provar azeite novo sobre pão tostado, sentir na língua o travo amargo e picante da azeitona acabada de moer, como quando eu me queimava a língua às escondidas. No Verão, algumas vinhas familiares aceitam vindimadores voluntários, recompensados com jantar e vinho à mesa de madeira sob a parreira onde eu cai de boca na terra.

O sol poente acende o xisto dos muros, e o silêncio da aldeia só é cortado pelo sino distante e pelo ranger de uma porta de madeira — a mesma que o meu avô nunca oleou para ouvir quem chegava. Fica o sabor do azeite na boca, o frio seco da altitude na pele, a certeza de que aqui a terra ainda dita o ritmo das coisas — e que eu nunca consegui explicar aos meus filos porque é que ainda choro quando cheiro a fumo de carvalho.

Dados de interesse

Distrito
Castelo Branco
Concelho
Fundão
DICOFRE
050410
Arquetipo
CULTURA
Tier
basic

Habitabilidade e Serviços

Dados-chave para viver ou teletrabalhar

2023
ConectividadeFibra + 5G
TransporteComboio a 18.3 km
SaúdeHospital no concelho
Educação28 escolas no concelho
Habitação~606 €/m² compra · 4.14 €/m² rendaAcessível
Clima16.8°C média anual · 740 mm/ano

Fontes: INE, ANACOM, SNS, DGEEC, IPMA

ADN da Aldeia

60
Romance
35
Familia
35
Fotogenia
70
Gastronomia
50
Natureza
20
Historia

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Perguntas frequentes sobre Bogas de Cima

Onde fica Bogas de Cima?

Bogas de Cima é uma freguesia do concelho de Fundão, distrito de Castelo Branco, Portugal. Coordenadas: 40.0754°N, -7.6939°W.

Quantos habitantes tem Bogas de Cima?

Bogas de Cima tem 328 habitantes, segundo os dados dos Censos.

Qual é a altitude de Bogas de Cima?

Bogas de Cima situa-se a uma altitude média de 619.9 metros acima do nível do mar, no distrito de Castelo Branco.

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