Artigo completo sobre Bogas de Cima: olivais em socalco e lagares de pedra
Aldeia no Fundão onde a azeitona galega e os enchidos fumados definem o quotidiano a 620 metros
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O cheiro a azeite novo sobe da pedra do lagar, mas é o cheiro a terra molhada depois da primeira chuva que me traz a avó de cachecol de lã a convidar para dentro de casa. Em Bogas de Cima, a 620 metros de altitude, as azeitonas galega caem nos panos estendidos sob as árvores que o meu tio ainda poda com a serra de dois gumes — e o barulho surdo das mós de granito ecoa nas paredes caiadas que ele próprio calçou. Este é território de olivais que sobem em socalcos de xisto onde eu perdi um sapato de escola, de vinhas que se agarram à terra seca, de fumeiros onde o chouriço ganha cor ao longo dos meses — e onde a minha mãe ainda vai buscar água ao poço com o balde de alumínio. Trezentos e vinte e oito habitantes ocupam um planalto ondulado entre a serra da Gardunha e a cova da Beira — e quase metade tem mais de sessenta e cinco anos, como o Sr. António que me dava bolachas Maria na loja que já fechou.
O caminho que atravessa a aldeia
A Via Lusitana corta a freguesia em direcção ao Fundão, pisando terra batida entre muros baixos de pedra solta onde eu escrevia o nome com um pau. Este ramo interior português do Caminho de Santiago traz, de quando em quando, peregrinos que param na fonte a beber água que sabe a ferro — a que passa longe das multidões, atravessando aldeias onde ainda se lavra a terra com tracção animal, como o burro do Sr. Jaime que eu montava quando tinha seis anos. O topónimo faz par com Bogas de Baixo, cem metros mais abaixo, lembrando a divisão medieval de propriedades agrícolas segundo a altitude — e eu sempre soube que "cima" queria dizer mais frio e mais vento. Não há festa padroeira oficial, raridade na região, mas há uma densidade invulgar de edifícios anteriores a 1919 — quarenta e nove construções que resistem ao abandono e ao tempo, como a casa da minha avó onde ainda se coze no forno a lenha.
Mesa com selo europeu
Aqui come-se cabrito da Beira assado no forno de lenha que o meu pai ainda acende com papel de jornal, regado a azeite DOP da Beira Alta que escorre dourado sobre a carne tostada — e que eu lambia do prato quando ninguém via. Os enchidos caseiros — chouriço, farinheira, morcela — pendem dos varais nos fumeiros, ganhando sabor a fumo de carvalho que me faz tossir quando passo. No Inverno, a sopa de castanhas aquece as mãos frias; no Verão, as cerejas IGP da Cova da Beira transformam-se em compotas que a minha tia faz de madrugada para não sentir o calor. A maçã e o pêssego da mesma origem aparecem em bolos de fruta que acompanham o café que bebo na chávena rachada do meu avô. À mesa, o vinho tinto da Beira Interior — trincadeira de tanino firme que me fez cuspir na primeira vez — lava o fumeiro e prepara o estômago para as migas com azeite que eu faço com as sobras do pão.
Trilhos entre olivais e vinhas
A paisagem abre-se em vistas amplas: a serra da Estrela recorta-se a oeste, a serra de São Mamede desenha-se a sul — e eu sei que é dia de neve quando as nuvens se agarram ao cume. Entre oliveiras retorcidas pelo vento e vinhas em socalcos, os caminhos de terra ligam Bogas de Cima a Bogas de Baixo e ao Fundão, percursos pedestres curtos onde se vêem grifos a planar, perdizes a correr entre o esteval e raposas ao crepúsculo — e onde eu fui mordido por um javali quando tentava apanhar cogumelos. Em Junho, a quinze minutos de carro, os cerejais da cova cobrem-se de branco — e eu sei que é hora de roubar cerejas do quintal do Sr. Domingos. Entre Novembro e Janeiro, os lagares artesanais abrem as portas — é possível provar azeite novo sobre pão tostado, sentir na língua o travo amargo e picante da azeitona acabada de moer, como quando eu me queimava a língua às escondidas. No Verão, algumas vinhas familiares aceitam vindimadores voluntários, recompensados com jantar e vinho à mesa de madeira sob a parreira onde eu cai de boca na terra.
O sol poente acende o xisto dos muros, e o silêncio da aldeia só é cortado pelo sino distante e pelo ranger de uma porta de madeira — a mesma que o meu avô nunca oleou para ouvir quem chegava. Fica o sabor do azeite na boca, o frio seco da altitude na pele, a certeza de que aqui a terra ainda dita o ritmo das coisas — e que eu nunca consegui explicar aos meus filos porque é que ainda choro quando cheiro a fumo de carvalho.