Artigo completo sobre Castelejo: pomares em flor sob a Serra da Gardunha
Freguesia do Fundão onde a cereja tardia e o azeite floral marcam o calendário da altitude
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O cheiro a lenha mistura-se com o aroma adocicado das cerejas maduras quando o vento sobe da ribeira de Enxabarda. É maio e os pomares que rodeiam Castelejo explodem em tons de rosé barato - aquelas árvores parecem que estão de festa, mas de uma festa de aldeia, sem confetis nem bandas. Ao fundo, a Gardunha faz-se valer, cerradinha como quem guarda segredos, enquanto o sino da igreja marca as horas como um velho que se lembra de dar boleia ao tempo.
Altitude e Memória
A 498 metros, Castelejo é daquelas aldeias onde o GPS se engana e o telemóvel pisca como velas de aniversário. O nome vem de "castellum", dizem os livros - uma torre que lá estaria, a vigiar quem vinha da serra. Hoje em dia, quem vigia é o cão do Arnaldo, que ladra para tudo o que se mexe, inclusive para o carteio.
Durante séculos, isto foi couto de Alpedrinha e passavam por aqui os peregrinos da tal Via Lusitana. Deviam estar perdidos, porque o caminho para Santiago não é por aqui - mas quem se importa? Deixavam as suas moedas e as suas histórias, como fazemos nós hoje quando paramos no café do Fundão para um café com bagaço.
A igreja de Santa Luzia é do século XVIII, mas parece mais velha - não pela arquitectura, mas por aquela paciência que as pedras têm de aturar os anos. O adro é o miradouro onde os rapazes vão fumar o primeiro cigarro e os velhos vão morrer um bocado à sombra. À tarde, quando o sol se põe atrás da Gardunha, a luz é tão dourada que até parece que alguém derramou um bagaço de reserva por cima da paisagem.
Ouro Verde e Cereja Tardia
O azeite aqui é "tardio" - não por preguiça, mas porque a altitude faz as azeitonas esperar. Em novembro, quando noutros sítios já está tudo feito, aqui ainda se vai aos pomos. O lagar cooperativo abre e o azeite sai quente, provado em pão queimado da lenha, com aquele folar de carne que a mulher do Zé faz - não é receita de ninguém, é dela, e só ela é que sabe o segredo das carnes que leva.
Quando chega maio, a aldeia fica assim... como um quarto de miúda que decidiu pintar tudo de cor-de-rosa. É cerejeira que nem acaba mais. O trilho do azeite liga Castelejo a Enxabarda - são cinco quilómetros que se fazem em três, se não houver ninguém no caminho a contar a vida. A ribeira forma uma piscina natural onde os putos se atiram de calções, e os pais fingem que não estão a ver, a lembrar-se quando faziam o mesmo.
Fogueiras e Cantares
Em dezembro, a Festa de Santa Luzia é das poucas alturas em que a aldeia parece que ganha cor. Acendem-se archotes, não porque seja preciso, mas porque sempre se fez assim. O pão-de-ló da Luzia é molhado em azeite novo - quem nunca comeu, não sabe o que perde. É como manteiga, mas melhor, e não engorda (é o que se diz).
Na noite de São João, há um cantar que vem dos tempos dos trovadores. Ninguém sabe bem a letra, mas toda a gente canta. É como aquelas rezas que se aprendem de ouvido - vão mudando, mas o sentido fica.
Água Fria e Pés Cansados
O lavadouro é o sítio onde as mulheres já não vão lavar a roupa, mas onde os peregrinos ainda param. A água é tão fria que faz lembrar o primeiro beijo - arrepia, mas depois aquece. Os pés cansados agradecem, e quem passa fica a saber que aqui há sempre um sítio para descansar.
É isto Castelejo - não é grande coisa, mas é nossa. E quem cá vem, vai embora com a certeza de que há sítios onde o tempo não passa: apenas se senta à sombra da oliveira e espera que a vida faça o resto.