Artigo completo sobre Pêro Viseu: cerejas, xisto e caminhos de Santiago
Freguesia do Fundão onde uma cerejeira centenária marca o tempo e a ponte medieval guia peregrinos
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A calçada sobe direita, tão estreita que duas pessoas se tocam nos ombros se tentarem passar ao mesmo tempo. O xisto rangem debaixo dos sapatos — não é pedra polida, é o mesmo xisto que faz mossa nos dedos quando se apanham amoras no muro do quintal do Sr. Carlos. Em maio, as cerejas ainda estão verdes, mas o cheiro já se adivinha: é um perfume azedo que se mistura com o pó quente da estrada.
No adro, a cerejeira tem um nó no tronco onde eu me sentava para descalçar as sandálias cheias de terra. Dizem que dá oitenta quilos, mas ninguém pesa — é o que cabe em cinco bidões de vinte litros que o pai do Nuno leva para a feira de domingo em Alpedrinha. As ginjas são outra história: ficam pretas de repente, numa tarde de junho, e depois é uma correria de crianças com as bocas pintadas de roxo.
A ponte medieval não é monumento — é onde a avó do Zé passava com a burra carregada de lenha. Dois arcos desiguais porque o rio, nas cheias de 43, levou metade da obra. Ainda assim, os peregrinos continuam a passar, mas agora trazem mochilas da Decathlon e pedem água às casas com a porta aberta. O trilho PR2 tem uma seta pintada em vermelho que o meu tio fez com tinta de rodas, para os turistas não se perderem no caminho do lagar.
O xisto que foi para Tomar — é verdade, mas aqui guardamos o pior: o que tem veios brancos e parte ao meio. O bom serviu para o Convento, o resto ficou para os muros que o meu pai vai consertando todos os anos quando a chuva leva pedras. Os palheiros têm cheiro a milho e a rato morto. No lagar, o azeite escorrega pela cana de bambu direto para a garrafa de cinco litros — prova-se com pão queimado, o primeiro que sai do forno da Ana, e fica na garganta um gosto de tomate que ainda não é maduro.
Em janeiro, o bolo benzido vem embrulhado em papel de estraza e ainda quente — a tia Albertina faz marca-cruz no centro com um garfo de madeira. As crianças não querem o bolo, querem a fogueira de São Sebastião onde assam castanhas que estalham como tiros. A Festa da Cereja é quando a aldeia fede a álcool: os homens bebem ginjinha em copos de plástico e depois cantam o fado de Coimbra, mas só conhecem o refrão.
A chanfana leva vinho tinto de garrafa de três litros — não é da região, é do supermercado do Fundão. O segredo é o tacho de barro que a avó trazia de Viseu quando casou, tem uma racha que não se fecha mas é onde o cabrito fica mais mole. Os espargos silvestres nascem à beira do caminho onde o cão do Totó morreu atropelado — apanham-se de manhã cedo, quando ainda têm gotas de orvalho que parecem lágrimas.
Na Fraga da Pena, os abutures não voam — planam como se estivessem à espera. O miradouro tem uma placa toda riscada com nomes de namorados: "Rute + Bruno 2002". O Clube de Astronomia traz telescópios que parecem canhões, mas o céu é o mesmo de sempre — aquele em que eu via a Via Láctea quando fugia para fora de casa depois de levar na cabeça por não ter ido buscar as vacas.
Quando o sol se põe atrás da ponte, o xisto fica quente ainda — guarda o calor do dia como quem guarda segredos. A cerejeira do adro já perdeu metade dos ramos na tempestade do ano passado, mas no sítio onde partiu nasceu um rebento novo. Oitenta quilos? Talvez. Mas o que importa é que ainda dá fruto, e que as crianças continuam a subir aos ramos, mesmo que agora tirem selfies com o telemóvel que o pai lhes comprou no Black Friday.