Artigo completo sobre Póvoa de Atalaia: onde Eugénio de Andrade nasceu poeta
União de freguesias no Fundão preserva memória do poeta e tradições da Beira Baixa
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O cheiro a lenha queimada — aquele que fica na roupa depois de um dia na serra — mistura-se com o aroma denso dos olivais que cercam as casas. Nas ruas estreitas da Póvoa de Atalaia, os sapatos batem na calçada irregular e o som parece acordar as paredes caiadas. Aqui, a 374 metros de altitude, o silêncio não é ausência — é antes um tipo de companhia que se vai conhecendo. Interrompe-se com o sino da igreja ou com o ladrar de um cão que, se for o Tejo do Sr. Armindo, ainda vem atrás para receber um biscoito.
A vila que foi e a aldeia que guarda versos
Atalaia do Campo tem no nome o que perdeu: entre 1570 e o princípio do XIX, foi vila e sede de concelho. Em 1801, contava 358 habitantes — número que diz tanto sobre a dureza do território como sobre a teimosia de quem cá ficou. Hoje, fundida com Póvoa de Atalaia desde 2013, a freguesia soma pouco mais de mil almas, 427 com mais de 65 anos. Mas é na Póvoa que vive a memória mais luminosa: Eugénio de Andrade passou aqui os primeiros dez anos, antes de a poesia o levar para longe. O Museu que guarda o seu nome está instalado na antiga escola primária — lugar onde, se escutar com atenção, ainda se ouve o ranger das cadeiras e a voz da Professora Alice a dizer «menino José, preste atenção».
Pão, azeite e cereja — o paladar da Beira
A mesa não mente. O cabrito assado cheira a alecrim e a azeite novo, o dourado que escorre é daquela colina mesmo — a do Sr. Domingos, que ainda vai ao lagar de tracção animal no fim-de-semana. As papas de milho, servidas às dezenas na Festa das Papas (janeiro, traga fome), são acompanhadas por rojões e chouriça de fumeiro que a Dona Odete faz no primeiro andar da casa, junto à lareira. Em junho, a cereja do Fundão pinta vermelho os caminhos; em setembro, são as maçãs reineta que se vão ameigando na árvore da avó. A azeitona galega, gorda e lustrosa, dá um azeite verde-escuro que, embora não tenha nome chique na garrafa, sabe melhor que muito PDO que se vende na capital.
Trilhos de pedra e fé
O Caminho de Santiago cá passa, mas não é o das multidões. É a Via Lusitana, rota interior onde o peregrino vai sozinho, a mochila pesa e a sombra das oliveiras faz falta. Cruza-se com cruzes de granito e capelas de porta encostada que, mesmo fechada, está aberta — basta empurrar. A Igreja Matriz de Póvoa de Atalaia não tem ourives: é pedra, cal e o altar de madeira escura onde as velas se vão gasto devagar. Em setembro, a Festa de Santo Estêvão enche o adro de mesas de madeira e de conversa que vai até tarde. Quem levanta a cabeça vê a Serra da Gardunha recortada e pensa que, afinal, não é preciso ir mais longe.
O que fica quando se parte
Castelo Novo fica a dez minutos de carro, mas há quem nunca lá tenha ido — e não é por falta de estrada. Aqui não há filas para tirar selfie, nem lojas de souvenir. Há duas moradias que alugam quartos, a porta tem o número apagado e o código da Wi-Fi está escrito num papel colado à parede. As ruas de Atalaia do Campo conservam o traçado medieval: quem entra de carro risca o espelho, quem entra a pé ganha conversa. O musgo cresce nas juntas do xisto e o vento que desce da serra traz o cheiro a terra molhada mesmo nos dias sem chuva.
Quando o sol se põe por trás dos olivais e a luz rasante incendeia as fachadas, percebe-se que há lugares que não gritam «visite-me». Apenas ficam ali, pacientes, como quem sabe que o tempo é de quem para.