Artigo completo sobre Vale de Prazeres e Mata da Rainha: cerejeiras e xisto
Duas aldeias reunidas no sopé da Gardunha, entre pomares em socalcos e memórias da Coroa
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O aroma da cereja amadurecida ao sol mistura-se com o fundo de terra molhada que sobe da ribeira. Em Vale de Prazeres, o nome não mente: os terraços de xisto desenham um mosaico verde e ocre onde amendoeiras e cerejeiras se alternam, pontuados pelo cinza dos muros que seguram séculos de trabalho. A meio da manhã, o silêncio só é cortado pelo murmúrio da água que desce da Gardunha e pelo eco distante de um sino — da igreja matriz de São João Baptista, construída em 1727, ou da Capela de São Pedro, em Mata da Rainha, aldeia que entre 1976 e 2013 constituiu freguesia autónoma antes de voltar a juntar-se a Vale de Prazeres.
Dois nomes, uma história
Vale de Prazeres aparece num foral de 1515 como Vallis Prazerum — o vale dos prazeres, alusão directa aos jardins e hortas que os monges de Alpedrinha cultivavam nestas encostas férteis. Mata da Rainha guarda memória mais antiga: terras de caça e pastoreio da Coroa, frequentadas pela corte medieval, onde os coutos da Ordem de Cristo deixaram marca nas rotas de transumância que ligavam a Gardunha à Beira Alta. Durante as invasões francesas (1807-1811) e as guerras liberais (1828-1834), os caminhos rurais serviram de passagem a tropas e arrieiros — o próprio General Massena passou por aqui em 1811, caminho de Sabugal. Hoje, o Caminho Interior de Santiago atravessa a freguesia de leste a oeste, passando por Mata da Rainha, onde os peregrinos carimbam o passaporte na Capela de São Pedro antes de rumar a Alpedrinha.
A igreja matriz de Vale de Prazeres ergue-se em pedra cinza, nave única e retábulo barroco que captura a luz da tarde. No adro, cruzeiros de granito do século XVIII marcam a entrada — guardas silenciosos do tempo. Mata da Rainha responde com o chafariz de seis bicas, construção setecentista em alvenaria granítica onde, até aos anos 90, ainda se lavava roupa ao som das conversas cruzadas. Entre as duas localidades, a ponte de pedra sobre o ribeiro de Vale de Prazeres resistiu à grande cheia de 1978, testemunha do caminho real para Alpedrinha. Nos casais dispersos, antigos lagares de azeite guardam prensas de madeira e mós de granito — alguns ainda em funcionamento, produzindo o Azeite da Beira Interior DOP, frutado e ligeiramente picante.
Sabores que fincam raízes
A chanfana de cabrito da Beira fermenta horas a fio em tachos de barro de Bisalhães, vinho tinto e alho-negro libertando um perfume denso que se espalha pela cozinha. As migas de espargos silvestres, colhidos nas encostas da Gardunha em Abril, vêm acompanhadas de toucinho fumado, enquanto a sopa de tomate e pimento com ovo escalfado pede pão de centeio de Trancoso para molhar. O queijo de ovelha cura em barrica de azeite durante seis meses, ganhando camada dourada e sabor intenso. A cereja IGP da Cova da Beira, apanhada em maio e junho nos pomares abertos ao público, desaparece fresca ou ressuscita em licor caseiro com aguardente vínica da região. No Natal, os biscoitos de anis e aguardente espalham-se pelas mesas, ao lado do doce de requeijão com mel de urze colhido na Serra da Estrela.
Trilhos entre água e pedra
O Trilho dos Moinhos parte da igreja de Vale de Prazeres e desenrola seis quilómetros entre moinhos de água do século XIX, a ponte medieval e o miradouro sobre a Gardunha. A ribeira forma poços de água limpa, usados antigamente para rega — hoje refúgio de borboletas e libélulas. Os afloramentos de xistos e quartzitos da serra albergam falcoaria e corujas-das-torres; nos meses frios, os postos de vigia assinalados permitem observar aves de rapina em voo rasante. Na Mata da Rainha sobrevive um único exemplar de carvalho-alvarinho com mais de trezentos anos, classificado como árvore de interesse público em 2017 — tronco retorcido com 4,2 metros de perímetro, casca gretada, copa que projecta sombra suficiente para uma dúzia de pessoas.
Calendário vivo
No primeiro domingo de maio, a romaria em honra de Nossa Senhora da Conceição enche o adro de cânticos ao desafio e arraial que dura até ao amanhecer. A 29 de junho, São Pedro abençoa os campos em Mata da Rainha e o pão-de-ló comunitário reparte-se entre vizinhos e visitantes — a receita passa de mãe para filha desde 1850. A 6 de janeiro, o cortejo dos Reis Magos percorre as localidades ao som de concertinas, distribuindo bolo-rei e aguardente. A feira anual de outubro, junto ao adro, junta fruta, azeite, mel e cestos de vime tecidos à mão pelos últimos três oleiros que ainda praticam a arte.
O frio da pedra da ponte sobe pelas palmas das mãos. A água corre por baixo, indiferente, repetindo o som que acompanhou arrieios, monges, tropas napoleónicas e peregrinos a caminho de Santiago. Nas margens, o musgo verde-escuro contrasta com o xisto negro. Aqui, a memória não se guarda em museus — vive na textura da pedra, no sabor do azeite novo, no eco do sino que marca as horas sem pressa.