Artigo completo sobre Balões de Natal sobre Aldeia de Santa Margarida
Tradição fogueteira, vestígios romanos e mercado mensal numa aldeia da Beira Interior
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O balão de ar quente sobe devagar na noite de 24 de Dezembro, levado pelo calor das chamas e pelos olhares de quem se junta à porta da igreja. É tradição que remonta aos anos 60, quando a antiga Fábrica de Fogo de Artifício de Santa Margarida encerrava as portas e os operários, em vez de levar para casa o pólvora que sobrava, faziam subir estes "faróis" de papel. Hoje são os netos de António Candeias — o último mestre fogueteiro da aldeia — que mantêm o gesto vivo. O balão afasta-se sobre os telhados de xisto, pequeno ponto luminoso que desaparece na escuridão da Serra de São Miguel. Aldeia de Santa Margarida, 201 habitantes recenseados em 2021, 380 metros de altitude, é a menor freguesia do concelho de Idanha-a-Nova. Mas não é o tamanho que a define.
Pedra sobre pedra, século sobre século
A igreja matriz guarda na fachada uma concha de Santiago, embutida na cal como quem deixa recado para quem passa. A inscrição de 1708 na porta lateral — não a principal, como se diz — marca a reconstrução pós-terramoto, mas há pedras mais antigas: no campanário, uma laje com inscrição "M. IULIUS" identificada por Virgílio Correia em 1919, lembrando que este lugar já era habitado quando a Estrada XVI de Antonino Itinerário ligava Augusta Emerita à Bracara Augusta. O castro da Lajola, a 500 metros sul da aldeia, tem fossado visível e tábuas de 1958 do Museu de Viseu que falam de "cerâmica indígena com decoração incisa". Na Rua do Reduto, o poço que os mais velhos chamam "dos Mouros" tem 11 metros de profundidade e parede revestida a opus signinum — mesmo técnica romana usada na villa de Torre de Palma, a 20 km. A Ordem dos Templários recebeu a doação de 1385 de D. João I, mas o que provam os documentos é que foi D. Álvaro Gonçalves de Ataíde, comendador de Castelo Branco, quem repovoou a terra depois da peste negra ter reduzido os habitantes a "cinco fogo e meio".
O mercado que regressa
No último domingo de cada mês, o Largo de Santo António enche-se de loiças de Nisa, roupa de segunda mão vindas de Castelo Branco, fruta da Beira Interior e legumes da horta de Maria do Céu. O mercado mensal foi retomado em 2017 depois de 30 anos ausente — a Câmara de Idanha-a-Nova cedeu as bancas de madeira que estavam no Póvoa de Rio de Moinhos. A 8 de dezembro, dia da padroeira, há bolo de pinhão e licor de medronho caseiro. Quem vem de fora descobre que aqui o comércio ainda tem rosto e nome próprio: o talho do Zé Manel vende cabrito com carimbo IGP, a mercearia da Adelaide tem azeite Galega da Beira Baixa IGP engarrafado por ela própria — 500 oliveiras da família na herdade do Vale do Pereiro.
Cozinha de altitude
Os vinhedos da Casas do Côro a 700 metros, mas os de Santa Margarida estão mais baixos: os 12 hectares da Quinta da Lapa, plantados em 2003, produzem o "Passar do Tempo" — rosé de Touriga Nacional que ganhou medalha de prata no concurso de Cantanhede 2022. O azeite é outra história: as 800 oliveiras centenárias do lugar da Serra, variedade Galega, são vindimadas em novembro e moídas no lagar cooperativo de Monsanto — DOP Azeite da Beira Baixa desde 1996. À mesa, cabrito da Beira IGP de 45 dias assado no forno a lenha do restaurante "O Brasão" (aberto só aos fins de semana), regado com vinho branco do Fundão. A Carnalentejana DOP chega da cooperativa de Proença-a-Velha, 15 km. Os queijos — ovelha Serra da Estrela e cabra de Idanha-a-Nova — são comprados quinta-feira na feira de Castelo Branco e maturados na arca de água salgada que a D. Odete mantém desde 1978.
Paisagem protegida
Todo o território da freguesia está incluído no Parque Natural do Tejo Internacional desde 2000 e no Geopark Naturtejo da UNESCO desde 2006. Os outeiros cobrem-se de rosmaninho e alecrim — 800 kg colhidos em 2022 pela cooperativa de Rosmaninho de Idanha. No cabeço do Frade, a 450 metros, nidificam 3 casais de grifo-real monitorizados pela LPN desde 2018. Os trilhos pedestres — PR2 "Caminhos do Xisto de Santa Margarida" — têm 8,5 km e foram sinalizados em 2019 pela associação Aldeias do Xisto. À noite, com o índice de poluição luminosa de 21,3 mag/arcsec² (medido pelo Dark Sky Aldeias do Xisto em 2021), vê-se a Via Láctea que os romanos chamavam "via lactea" e os habitantes locais "o caminho de São Tiago".
A concha de Santiago na fachada da igreja já não guia peregrinos, mas continua a interrogar quem passa: que caminho trouxe gente até aqui, que razão os fez ficar? A resposta está no balão que sobe na noite de Natal, pequena luz fabricada por mãos que conhecem o fogo — os Candeias ainda usam o papel de seda importado de Alcobaça, mesma fábrica que fornecia à extinta Fábrica de Fogos de Santa Margarida que fechou em 1983.