Artigo completo sobre Medelim: xisto, silêncio e vinhas no Tejo Internacional
Aldeia de pedra entre a serra e o rio, onde a tradição rural resiste em cada calçada e oliveira
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O eco dos passos na calçada irregular ressoa entre as casas de xisto e cal, enquanto o vento traz do vale o murmurio da ribeira de Medelim — aquele som de água que os antigos diziam ser o sangue da terra. Aqui, no rebordo granítico entre a serra e o Tejo Internacional, somos 230 almas espalhadas por 3.047 hectares. Um número que se sente quando se cruza com o Zé do Cabaz à porta do café e se percebe que o silêncio que se segue é o mesmo que acompanhava os nossos avós.
Pedra que testemunha
A Igreja de São Brás tem a porta pesada que range sempre no mesmo sítio — os oleiros de Antanhol chamam-lhe "o gemido da igreja". Dentro, o retábulo barroco foi pintado por um homem que vinha de Vilar Formoso e trazia nos bolsos pigmentos que cheiravam a terebintina e a promessas. No adro, o cruzeiro tem uma pedra mais clara onde as crianças sentam para descansar dos jogos, deixando lá a marca dos calções de verão. A ponte medieval, essa, guarda no arco o buraco de uma bala de 36 — dizem que foi o capitão Henrique que ali se escondeu quando os franceses passaram.
Cozinha de montanha e chão
O ensopado de borrego da Dona Lurdes leva três horas no fogão a lenha — o tempo exacto de uma missa dominical mais o café no adro. O cheiro do rosmaninho não vem da encosta, vem do canteiro atrás da casa onde ela rega todos os dias às seis, antes de os galos cantarem. O cabrito é do Jó, que o tempera com alho de rosca e vai virando na brasa enquanto conta como era o rapaz que fugia para a guerra. O azeite é da oliveira da tia Amélia, aquela que foi plantada quando ela nasceu em 43 — cada garrafa traz um pedaço de cortiça com o ano marcado à caneta.
Território de voo e pedra antiga
No Carrascal, o telescópio está partido desde o ano passado, mas nem faz falta. Os grifos fazem-se ver à hora do almoço, quando o termómetro sobe e as correntes térmicas os erguem como se fossem almas em ascensão. O Joaquim, que foi guarda florestal, sabe-os todos pelo nome — o de asa partida, o branco na cauda, o que grita antes de cair em picado. A oito quilómetros, no moinho do Pica, ainda há farinha no fundo da moega — farinha de 97, dizem, quando o Zé Manel moía para a boda da filha. À noite, quando o céu abre em profundidade vertiginosa, ainda se ouvem as vozes dos homens que foram para a guerra e nunca voltaram — ecoam nas pedras quentes do dia, misturadas com o cheiro do xisto que arde nas lareiras.