Artigo completo sobre Proença-a-Velha: 190 almas entre olivais e granito
Aldeia medieval na Beira Baixa onde o silêncio tem densidade e a pedra organiza o quotidiano
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O sino da igreja bate três vezes e o som não se perde — segue pela Rua da Costória, desce até ao chafariz, sobe outra vez pela Travessa do Forno. É um rumor seco, de bronze antigo, que faz levantar a cabeça aos cães e interrompe o miar das gatas no cimo dos muros. Em Proença-a-Velha, o silêncio pesa: não é falta de ruído, é um tempo que se abre entre os batimentos. São cento e noventa pessoas, mas nesta hora parecem menos. A luz da manhã entra rasante, raspa o calcário das paredes, deixa os portais de madeira com um brilho de mel. Não há pressa — há antes a sensação de que o dia pode ser dobrado como um pano.
A igreja não é grande. Tem a porta principal entaipada desde o temporal de 81, quando a trave caiu e partiu o lintel. Entra-se pelo lado, por uma abertura estreita que obriga a baixar a cabeça. Dentro, cheira a cera e a roupão molhado. O retábulo é de 1743, dizem, mas o que se nota é o raspanho das mãos que o tocam todos os domingos, o lugar liso onde se encostam as testas. Não há guias, nem multimédia. Há uma cadeira de vime onde o padre deixa os óculos, e um gato que se insinua entre as bancadas como quem pede esmola.
Território de fronteira
Proença-a-Velha foi, durante séculos, o sítio onde o reino acabava. Diz-se que, nas noites de luar, se ouvia o ronco dos touros de Leão. Ainda hoje, quem vai ao cabeço da Senhora do Porto avista, no cimo da outra serra, a torre sineira de Aldeia de João Pires. A fronteira não era linha: era um lugar de negócios, de troca de mulheres e de gado, de moedas contadas ao sol. Aqui se falava — fala-se — um português que soa a castelhano, e se cantam seguidillas que a mãe ensinou à filha sem nunca perguntar de onde vinham. O topónimo é memória viva: “Proença” vem de terra longe, mas “a-Velha” é o desgosto de quem ficou.
Azeite, cabrito e carne de sol
O azeite é primeiro. Em Outubro, quando as azeitonas estão a estalar, vai-se ao lagar de manhã cedo, com os cestos de verga e a garrafa de aguardente para queimar na lamparina. O cheiro é de fruita verde, de erva picada, de sangue de oliveira. O azeite nasce espesso, com um ardor na garganta que faz tossir os visitantes. Depois vem o cabrito: é do Quintão, do Zé da Celeste, que o cria no borregueiro debaixo do choupo. Assa-se lento, com pão molhado em leite, e vai-se rodando até a pele ficar em bolhinha de vidro. A carne de sol — chamam-lhe assim, embora nunca tenha visto sal — pendura-se no lume do fumeiro durante três dias, a fumar de carvalho e de medronho. Quando está feita, corta-se em tiras finas, come-se com broa estaladiça e um copo de tinta que o Joaquinho traz em garrafões de cinco litros.
Dentro do Parque Natural do Tejo Internacional
A aldeia não está no mapa das grandes rotas, mas quem desce o desvio da N-233 fica surpreendido: de repente, o Tejo aparece em fundo de tela, a cortar as montanhas como uma faca antiga. Os trilhos começam mesmo ali, junto ao moinho do Rico, onde ainda se pode ver a roda de madeira presa ao eixo de ferro. Seguem-se os vales do Aravil e do Erges, com os sobreiros retorcidos e a urze a florir em Janeiro. Nas encostas, os pastores deixam os cães à solta — são cão de gado transmontano, grandalhões, que se entregam ao sono entre o gado. Acima, as águias-reais descrevem círculos sem pressa, como quem sabe que o tempo é seu. Não é natureza virgem: é natureza que se arrasta, que se queima, que se planta outra vez. Mas ainda assim guarda um sossego que o resto do país já perdeu.
Ao fim da tarde, quando o sol se encosta ao cimo do outeiro, o ar fica roxo e o granito parece incandescente. As mulheres levam os cestos do pão para casa, trocam umas palavras à porta, depois fecham-se os portões. O silêncio volta — não é vazio, é antes um recipiente que se enche do ranger de uma cama, do tique-taque do relógio de parede, do cochichar da lenha no fogão. Não se vem a Proença-a-Velha para ver coisas. Vem-se para se estar dentro do mesmo tempo da pedra, do mesmo compasso do sino que, às nove da noite, bate nove vezes e depois se cala, deixando o escuro fazer o resto.