Artigo completo sobre Mosteiro: aldeia de xisto entre pinhais e silêncio
Igreja medieval e caminhos de pedra numa freguesia onde vivem 260 pessoas em 1800 hectares
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O primeiro som que se distingue é o da água — um fio discreto, quase tímido, que escorre por entre pedras cobertas de musgo algures abaixo do caminho. Depois, o vento nos pinhais, um sopro longo que arrasta consigo o cheiro a resina e a terra húmida. Mosteiro, no concelho de Oleiros, não se anuncia. Chega-se aqui por estradas que parecem acabar em nada, onde o asfalto se transforma em terra batida sem avisar. O primeiro sinal de povoação são os muros de xisto escuro, empilhados com a precisão lenta de quem tinha mais paciência do que pressa. Duzentas e sessenta pessoas — na verdade, menos agora, porque a Zulinda foi viver para a filha em Castelo Branco e o António já não aparece na tasca desde o Inverno passado.
A ermida que deu nome ao lugar
O nome carrega-o desde que se tem memória, mas ninguém aqui chama "ermida" ao que agora é a igreja. É "a igreja", simplesmente, e basta. A porta abre-se com a chave que o padre deixa debaixo do vaso partido — toda a gente sabe onde está, ninguém o rouba. Dentro, cheira a cera derretida dos círios comprados na venda da D. Amélia e a alfazema que a mulher do sacristão esfrega no chão às sextas-feiras. As paredes de pedra têm a espessura de três palmos — já o sei de cor porque o meu avó me ensinou a medir com a mão quando era pequeno. Aqui baptizaram-se todos os meus, e aqui os pés descalços da minha mãe gelavam no chão nos dias de missa campal.
Caminhar com os peregrinos
Os peregrinos chegam com a cara queimada de sol e as meias sujas de pó. Param no chafariz da praça para encherem garrafas e perguntam onde podem comer qualquer coisa. O meu tio, se está na tasca, diz-lhes para sentarem-se e serve-lhes o que há — ontem foi sopa de nabos com enchido, amanhã não se sabe. Ninguém lhes fala em "Via Lusitana", mas indicam-lhes o caminho pela estrada de cima porque a de baixo está com a ponte partida desde as cheias de Outubro. À noite, quando acampam no terreno baldio junto à ribeira, ouve-se o ranger das mochilas e o murmúrio de vozes em línguas que não entendemos. Às vezes, o Caseiro vai lá ter com uma garrafa de vinho e fica a conversar sobre os caminhos do mundo, enquanto o cão dele roça o focinho nas mãos de quem lhe queira dar atenção.
Xisto, sobreiros e o tempo geológico
As aldeias do xisto vieram para aqui há uns anos com as suas casas pintadas de novo e os letreiros a dizer "propriedade municipal". Mas o xisto que nos interessa é o das paredes que ainda aguentam os telhados dos nossos pais, aquele que escorre água negra quando chove e que tem de ser restaurado com cal e areia, não com cimento. Os sobreiros são os mesmos de sempre — alguns têm as iniciais do meu bisavó marcadas a ferro quente, ainda se vêem as marcas. O Geopark trouxe escolas e japoneses com máquinas fotográficas, mas os fósseis que eles procuram nós usávamos para pesoar as folhas de milho quando éramos miúdos. A ribeira de Mosteiro tem um cheiro específico depois da chuva — mistura de folhas apodrecidas e barro — que me faz lembrar os dias em que faltava à escola para ir pescar enguias com as mãos.
O cabrito, a azeitona e a mesa posta
O cabrito assa-se no forno do Zé Manel que é maior que o dos outros, por isso é ele quem o faz para as festas. A lenha tem de ser de azinheira seca ao menos um ano, senão fica a gordura por queimar e a pele não estala como deve ser. Quando estão a assar, o cheiro percorre a aldeia toda — passa pela janela da escola, desce pela rua do cemitério e sobe até ao lugar do Redondo. A azeitona é daquelas que se come com os dedos, directamente do cesto, salgada o suficiente para fazer contrair a boca. O vinho vem em garrafões de cinco litros que o Adelino traz do Fundão, é branco e azedo como deve ser, bebe-se em copos pequenos que se enchem e esvaziam sem parar. Quando há matança do porco, a vizinha da Portela faz morcelas que são as melhores da freguesia — o segredo é o colorau que ela própria mói no moinho do irmão.
Ficar, observar, participar
As colheitas já não são o que eram — agora vêm máquinas da Beira Alta e acabam em dois dias o que antes demorava duas semanas. Mas ainda se faz como pode: as mulheres mais novas apanham os ramos mais altos com varas compridas, os velhos sentam-se no chão e escolhem as azeitunas uma a uma, contando os boatos do concelho. O pastoreio é do António das Cavadas que tem o rebanho misturado — ovelhas e cabras juntas — e leva-os para o alto do Carvalhal onde há pasto até Dezembro. Às vezes perde-se uma cabra e passamos a tarde toda à procura, assobiando e chamando pelos nomes que ele lhes põe: "Fidalga! Bruxa! Preta!".
Ao fim da tarde, quando o sol se põe atrás do outeiro da Senhora do Monte, a luz entra pela janela da cozinha da minha avó e põe-se sobre a mesa de pedra onde ela amassa o pão. É nessa altura que o silêncio se instala de verdade — nem um pássaro, nem um tractor, só o ranger da cama da D. Amélia que se vira do outro lado. A ribeira continua lá em baixo, correndo como correu antes de eu nascer e como correrá depois de eu me ir embora.