Artigo completo sobre Aldeia do Bispo: onde o silêncio tem textura
União de três aldeias no coração rural de Penamacor, entre xisto, serra e memória eclesiástica
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O som chega primeiro: o vento a varrer as encostas nuas, um sino que se ouve de Águas quando o ar está muito limpo. Aqui, na união de Aldeia do Bispo, Águas e Aldeia de João Pires, o silêncio pesa — denso, quase pegajoso, partido pelo ladrar de um cão que ninguém vê ou pelo ranger da porta da cisterna na Rua da Fonte. A luz raspa o xisto das casas e vai-se embora cedo, sobretudo no Inverno, quando as sombras se enroscam às quatro da tarde.
882 pessoas, dizem os papéis. Mas não dizem que às segundas-feiras a padaria de Aldeia do Bispo ainda abre às sete da manhã e que o cheiro do pão queimado se agarra à roupa estendida. Nem que na taberna de Águas o café sai mais forte depois das onze, quando o Sr. António vai buscar a aguardente ao porão e deixa cair o copo ao balcão.
O que ficou no nome
Aldeia do Bispo deve o nome ao facto de o bispo de Guarda ter cobrado dizimos aqui até 1834; ninguém erigiu monumento, mas ainda se diz “vai para a quinta do bispo” quando nos referimos ao monte alto a norte, onde hoje só cresce tojo. Águas, outrora Águas Altes, ganhou o epiteto porque as minas e os poços brotam a metros de profundidade — ainda assim, as mulheres iam (e vão) lavar roupa ao tanque público, mesmo depois de chegarem as máquinas. Aldeia de João Pires leva o nome dum pastor que, segundo o livro de registo paroquial, doou terreno para a capela de S. Sebastião em 1622; na porta lateral conserva-se a marca do galego que repuxou o ferro com a sua inicial, J.P., entalhado à pressa.
Malcata, à distância
A Serra da Malcata começa onde as pastagens acabam. Não se entra por aqui na reserva — para isso há outras portas, mais a norte — mas sente-se: o vento traz cheiro a esteva, as abelhas da Malcata trabalham o mel do Rosmaninho que depois se vende em Penamacor. Quem camha pelos caminhos de xisto encontra, sim, pegadas de lobo impressas na lama de Janeiro; ninguém as confunde com as do cão de caça, porque são maiores e vão em linha recta, como quem sabe para onde vai.
O que se come (e quando se pode)
O azeite vem das oliveiras galegas que resistem ao gelo de Janeiro; no lagar cooperativo de Penamacor, azeitam-se ainda as que sobram de três ou quatro produtores que não deixaram as terras ao abandono. O cabrito é de facto da Beira, mas só se come em dias de festa — nas casas, assado na panela de barro da avó, regado com vinho branco e colorau. Em Junho, dias de Santos, abrem-se as portas: há sardinha assada no adereço da padaria, broa de milho e centeio feita no forno comunitário de Águas (aquele que o Zé Mário aquece durante quatro horas com guardas de medronho). Não há menu, não há conta separada: paga-se o que se acha justo e leva-se uma garrafa de vinho tinto “de garrafeira” — engarrafado no porão do Sr. Eduardo, engarrafado à mão às segundas depois do sol-pôr.
Quando a noite cai
Às nove, as ruas ficam negras. O postigo da pastelaria bate, o cão do Sr. Fiscal deita-se ao meio da estrada e não se mexe. Acende-se a lareira, ouve-se o estalar da lenha de sobreiro que alguém trouxe da serra em Janeiro. O sino toca outra vez — nove badaladas que soam a despedida. Se houver luar, vêem-se as chamines fumegantes como velas acesas num mapa. E fica-se ali, entre o cheiro a fogo e a cera da vela, sem saber bem se o silêncio é paz ou aviso.