Artigo completo sobre Pedrógão e Bemposta: granito, olivais e serra
Duas aldeias unidas entre oliveiras centenárias e a Reserva Natural da Serra da Malcata
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O granito aparece onde menos se espera — nos muros que nem servem para nada, só para mostrar que alguém um dia teve paciência de os amontoar, nos tanques onde a água da serra chega tão gelada que até em Agosto faz arrepios. Pedrógão de São Pedro e Bemposta são duas aldeias que decidiram casar para não morrer sozinhas, espalhadas por um monte de hectares que ninguém conta bem porque aqui a fronteira entre terras é como a velha discórdia dos primos — ninguém sabe bem onde começa nem onde acaba.
A estrada faz curvas como quem vai bêbado, entre oliveiras que parecem velhas do Restelo — cada uma com a sua história de cicatrizes e nós que até dói. Dão azeitonas que depois aparecem etiquetadas como DOP, mas o que interessa é que no lagar do Zé, ali em baixo, ainda se faz azeite como se fazia no tempo da avó: com prensa de pedra que pesa como a consciência e um cheiro a bagaço que fica na roupa durante dias.
Território de fronteira
A Malcata fica ali ao lado, mas não vá o leitor a pensar que é um parque de merendas. É serra séria, onde o lince até pode estar ou não estar, mas o que é certo é que se perdem os cães e às vezes até os pastores. Os trilhos são aqueles em que o calçado conta — chinelos não, senão vai para a escola da vida. E leve água, que aqui não há café nem máquina de vender snacks. O silêncio é tal que até se ouvem os pensamentos, e o único barulho que se ouve é o estalar dos joelhos de quem desce demasiado depressa.
Dos 572 residentes, mais de metade já tem idade para receber a pensão. São eles que sabem onde fica o canto onde a terra é boa para o tremoço, que horas se toca para missa, e que guardam as receitas do cabrito como se fossem segredo de estado. As crianças são 34 — dá para uma equipa de futebol com suplentes — e correm pelos largos como se o tempo não fosse um problema que lhes vai bater à porta mais tarde ou mais cedo.
Pedra e memória
Há umas pedras com estatuto, mas o que interessa é que ainda se aguentam de pé. Ninguém sabe bem o que é que são — capela, cruzeiro, antiga casa de banho pública — mas estão lá, a lembrar que antes também se fazia coisas para durar. O vinho agora vem de fora, em garrafões que não fazem estilhaços mas também não fazem saudade. Ainda há quem tenha umas vinhas em socalcos, mas é mais para consumir em casa do que para dar ao vizinho — que vizinho?
Para dormir, há nove casas. Nove. Não espere lençóis de 600 fios nem televisão com canais que ninguém vê. O luxo é acordar e não saber onde se está, só que se está longe de tudo. Não há sinalização para selfies, nem miradouro com guarda-corpos — se quiser ver a paisagem, suba à pedra como se subia aos plátanos quando miúdo. A beleza está ali, mas não lhe vai bater à porta: tem de ir ter com ela, e leve sapatos que não escorreguem.
O fumeiro do Alfredo ainda funciona, com chouriços que curam mais devagar que os filhos a pedir herança. Lá fora, quando chove — e chove pouco — o cheiro a terra molhada é como um abraço de velho amigo: demora a chegar, mas quando vem não há dúvida. Isto aqui não se leva a mal, mas também não se leva de ânimo leve — é como a boa mesa: precisa de tempo, paciência e vontade de ficar até ao fim.