Artigo completo sobre Cernache do Bonjardim: três freguesias, um rio
União de Cernache, Nesperal e Palhais preserva igrejas barrocas e tradições junto ao Zêzere
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O cheiro a lenha queimada não é cenário — é o forno do Zé Manel, aberto às 6h00 para o cabrito de sábado. No lagar cooperativo de Cernache, aberto desde 1953, o azeite novo escorre a 27 °C, torrencial, e o Sr. António ainda anota litros num caderno de capa dura. A calçada da Rua Direita, alargada em 1968 depois da cheia do Zêzere, continua a desnível que desfaz os sapatos de tacão — e ninguém se queixa, porque “sempre foi assim”.
A união de freguesias criada em 2013 juntou 3 364 habitantes, mas o cadastro de 1864 já listava 1 204 em Cernache sozinho. Cernache aparece em carta de 1446 do rei Afonso V como “Cernacu” com foral, enquanto Nesperal e Palhais pagavam dizimas ao Templo em 1288. O “Bonjardim” surgiu depois de 1758, na reforma pombalina, para distinguir a freguesia da outra Cernache, na Beira Alta.
Três altares, três padroeiros
Cernache: igreja matriz levantada entre 1720-1734 depois do terramoto; o retábulo-mor é de 1743, talho de João de Melo, com 16 metros de talha dourada. Nesperal: capela de São Sebastião mandada construir em 1682 por João Gomes de Carvalho depois da peste; aí dentro há duas tábuas de 1704 com as armas da família. Palhais: a igreja de São João Baptista reedificada em 1777, com campanha paga pelos rendimentos do linho; a Capela da Conceição, no lugar de Vale Madeiro, tem altar de mármore de Estremoz oferecido em 1948 pelos emigrantes de Paris.
As festas mantêm a data fixa: 13 de junho, procissão de Santo António em Nesperal com alvorada às 7h00 e bolo de canela distribuído pela Confraria; 24 de junho, fogueira de São João em Palhais acesa com pinho bravo cortado na Serra da Gardunha; 16 de agosto, romaria a Nossa Senhora da Boa Viagem, com partida às 5h00 da Igreja de Cernache em direcção ao Alto do Viso. Em todas as tasquinhas o maranho é vendido em meias-dúzias, 6 €, embrulhado em papel de estraza.
Azeite, cabrito e o peso da tradição
O azeite com DO Beira Interior é maioritariamente galega vulgar; a cooperativa paga 3,20 €/kg ao produtor desde 2022. O cabrito é da raça Serrana, desmame aos 45 dias, peso de 6-8 kg, assado apenas com sal, pimentão da Beira e ramos de louro. A chanfana leva vinho tinto da casta Rufete, 24 horas de marinha, e vai à mesa com pão de milho de Molelos — o forno comunitário ainda coze às sextas-feiras, ficha 1 € por 4 pães. Nas doces, a fogaça de Cernache mede exactamente 18 cm, peso 400 g, receita registada na Câmara de 1923.
Trilhos: PR2 “Cernache – Zêzere – Palhais”, 12,4 km, waypoints CNS 1 a 12, desnível 280 m; saída junto ao cemitério, regressa pela ponte romana de Palhais (data de 1892, não é romana, mas ninguém mudou o nome). A Via Lusitana passa no Largo do Chorro, há selo branco disponível no café O Padrão, aberto 7h-20h sem fechar à sesta.
Ao cair da tarde o sino da matriz dobra três badaladas: 18h00, aviso para fechar os portões das galinheiras. Nas cozinhas o fogão a lenha da marca Raízes, modelo Gardunha, ainda aquece meia dúzia de lareiras.