Artigo completo sobre São João do Peso: democracia em plenário na aldeia
A freguesia de Vila de Rei com menos de 150 habitantes onde a Junta se elege olhos nos olhos
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O café chega à mesa no copo de vidro temperado, espesso, quente ao toque. No balcão do «Cantinho», duas cadeiras vazias espelham-se no azulejo branco da parede. Lá fora, o asfalto da EN 348 corta a ondulação verde-escura do pinhal, e o silêncio pesa — não o silêncio bucólico dos postais, mas o silêncio denso de quem ficou. São João do Peso tem 132 habitantes. No verão, as piscinas particulares superam os residentes permanentes.
A freguesia que elege em plenário
Esta é a terra onde a democracia se pratica olhos nos olhos. Com cerca de 120 eleitores, São João do Peso tornou-se a freguesia com menos votantes em Portugal continental, obrigada por lei a eleger a Junta em plenário de cidadãos. Entre 2011 e 2021, perdeu 35% da população — o maior decréscimo da região do Médio Tejo. Dona Encarnação Dias Lopes, conhecida por «Dona São», lembra-se de quando a aldeia chegou aos 600. Hoje, dos 132 residentes, 81 têm mais de 65 anos. Quatro são crianças.
Templo revivalista num território templário
A Igreja Paroquial de São João Baptista ergue-se em pedra clara, arquitectura revivalista que destoa da modéstia rural envolvente. Classificada como Imóvel de Interesse Público, a nave ampla e a torre sineira contrastam com o casario disperso pelos lugares da Portela, Portela dos Colos e Aldeia do Outeiro. O topónimo «do Peso» remete possivelmente a um antigo marco de pesagem ou tributação medieval. Em 1165, D. Afonso Henriques doou esta região aos Templários, integrando depois a Ordem de Cristo. O foral de Vila de Rei, de 1285, abrangeu também este território. Mas não há castelos, pontes medievais ou conventos — apenas a memória difusa de uma comenda que se dissolveu no tempo.
Azeite, cabrito e os sabores que ficaram
A cozinha de São João do Peso não se exibe; persiste. O azeite DOP da Beira Alta e da Beira Baixa lubrifica ensopados de borrego e migas com torresmos. A azeitona Galega da Beira Baixa, protegida por IGP, amadurece nos olivais dispersos entre pinheiros. Nos dias de festa — raros, sem calendário fixo —, o cabrito da Beira IGP assa lentamente. No Inverno, sopas de castanha aquecem as mãos antes de aquecerem o corpo. A doçaria é de noz, mel e ovos: doce de gila, formigos, fatias de Tomar trazidas das vilas vizinhas.
Pinhal, cinza e água distante
A paisagem é de pinhal bravo e sobreiro sobre xisto e areia, ondulando entre os 300 e os 400 metros de altitude. Pequenas ribeiras descem para o Ocreza, invisível mas presente na toponímia dos vales. Em 2017, o fogo atravessou estas encostas. Os troncos negros ainda marcam o horizonte, intercalados com o verde-novo da regeneração. Não há praias fluviais, trilhos sinalizados ou parques classificados. O território vive-se nos caminhos de terra batida, no cheiro a resina quando o sol aquece, no eco seco dos passos sobre agulha de pinheiro.
Junto à estrada nacional, um miradouro informal abre sobre o vale do Ocreza e a serra da Melriça. Ali, o vento traz o cheiro a terra seca e o murmúrio distante de um motor agrícola. É tudo. E, por agora, basta.