Artigo completo sobre Cepos e Teixeira: Moinhos de Água na Serra do Açor
Onde o centeio ainda se mói em rodas de madeira e o queijo fumado cura nos currais de xisto
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O ranger da roda d'água é o despertador da aldeia. Não é som mecânico — é a madeira a queixar-se da idade, o eixo de castanho a gemer como o joelho do meu avô quando se levanta. Na Ribeira de Fajão, cinco moinhos acordam por ordem de antiguidade, como os irmãos que ninguém mandou nascer primeiro. O moleiro do Zé Alberto abre a comporta: a farinha cai em neve sobre o tabuleiro, ainda quente da luta entre a pedra e o grão. Aqui, a 662 metros de altitude, o pão ainda se faz como quando não havia padaria — só havia fome.
Pedra, água e xisto na Serra do Açor
A União das freguesias de Cepos e Teixeira é aquilo que sobra quando o mapa acaba: 198 almas espalhadas por vales onde o xisto é tão preto que parece ter sido queimado. Cepos deve o nome aos cepos ocos que serviam de colmeias — sim, antigamente as abelhas também eram de aluguer. Teixeira vem do ofício de quem fazia telhas ou do latim, depende de quem lhe perguntar depois de quantas jolas. Pelas Memórias Paroquiais de 1758 já cá andavam pastores a contar ovelhas e a perder a conta. O queijo Serra da Estrela ainda se faz nos mesmos currais de madeira, com leite de ovelha bordaleira e coalho de cardo — fumado à lenha de urze, como se a fosse preciso mais cheiro a fogo na roupa.
A Igreja Matriz de Cepos foi sendo barrocada durante séculos, como a casa que se vai arranjando quando o dinheiro aparece. Tem azulejos do tempo dos nossos bisavós e um São Pedro de talha dourada que parece que vai falar de mau humor. Em Teixeira, a Capela de São Sebastião guarda um santo de madeira trazido por peregrinos em 1620 — dizem que vinham de Santiago a pé, o que explica a cara de cansado do santo. Em janeiro, levam-se os cães, os burros e os gados para serem abençoados. No Domingo Gordo, os caretos voltam à rua com chocalhos e máscaras de lã — são os netos dos que já não se lembram porquê.
Chanfana, broa e o silêncio da montanha
A chanfana é o prato que separa os homens dos miúdos: bode velho a morrer de rijo no tacho de barro, vinho do Dão a tingir a carne de cor de noite sem lua. No "O Moinho", a posta de vitela cheira a brasa de sobreiro e vem com batatas "mal passadas" — é o que a minha avó chamava a quem não sabia fazer política. A broa de milho e centeio é daquelas que parte o dente se fores distraído; o requeijão fumado por cima é um erro que se perdoa. Depois, bolinhos de amor para enganar a diabete e pastéis de batata-doce para mentir à balança.
Trilho dos Moinhos e o cântico dos melros
O Trilho dos Moinhos (PR3) são sete quilómetros que se fazem em duas horas ou em três cervejas, depende da companhia. Passa-se por levadas de pedra onde a água corre mais depressa que os políticos a promessas, poços de refrigério que ainda guardam o pulso dos rapazes que fugiam à tropa. No Miradouro do Alto de São Pedro há um telescópio que serve mais para os turistas verem o que a serra lhes negou em Lisboa — o Mondego lá em baixo, a Estrela ao fundo, e a sensação de que o mundo é mesmo grande. A antiga Estrada Real agora é só para os pés e as conversas — no verão, ouve-se francês e suíço-alemão: são os emigrantes que voltam com a mulher e os filhos que já não falam bem nem uma língua.
Não há semáforos, não há rotundas, só um espelho convexo na curva de Teixeira que já viu mais acidentes que o padre. Ao entardecer, quando o moleiro fecha a comporta, o vale fica só com o murmúrio da ribeira e o sino das seis — um som que se cola ao xisto como a cola do papel de parede que a minha mãe nunca conseguiu arrancar.