Artigo completo sobre Pomares: Fumeiros e Queijos nas Encostas do Dão
Freguesia de Arganil onde 431 habitantes mantêm viva a produção de queijo DOP e vinhos de altitude
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O fumo sobe do fumeiro como quem não tem pressa nenhuma. Nem sempre é espiral — às vezes é só uma nata de fumo que se agarra ao teto negro de tanto anos. Pomares fica a quatrocentos metros, entre os vales do Dão, e o queijo cura nas prateleiras de madeira enquanto o vento lá fora parece saber o nome de cada um. São 431 almas, mas a contagem é traiçoeira: no café, quando se junta a malta, parecemos mais.
Crianças há quarenta e duas. Idosos, cento e oitenta e oito. Entre estes números está o resto da vida. As mãos que amassam o queijo Serra da Estrela são as mesmas que há trinta anos faziam o mesmo gesto — só que agora há selo europeu a dizer que está certo. A certificação não ensinou nada a ninguém; só veio dizer ao resto do mundo que cá já sabíamos. Na cozinha, a maçã da Beira Alta espera pela compota como quem espera por um comboio que vem sempre a horas. O borrego vai ao forno com lenha da serra: não é receita de Instagram, é assim que se faz porque sempre se fez.
Onde a vinha encontra a montanha
Estamos na região do Dão, o que nestas bandas é como ser o primo que vem de fora mas é da família. As vinhas agarram-se aos socalcos como quem se agarra a um lugar na mesa do jantar — apertado, mas é nosso. Não há cá provas guiadas nem gift shops. Há adegas com a porta aberta, garrafas que nem sempre têm etiqueta, e o vinho que se prova à boca-de-empreitada. Se gostou, leva. Se não, fica para o próximo.
A densidade populacional é de menos de catorze pessoas por quilómetro quadrado, o que quer dizer que pode gritar que ninguém ouve — ou então ouve-se tudo porque o silêncio é tão grande que até o sino da ovelha parece campainha de igreja. Os três mil hectares são de floresta, pasto e hortas do tamanho de um lençol. Cada casa tem a sua, e a despensa é o GPS da vida cá em cima.
Oito portas abertas
Há oito sítios para dormir. Não são hotéis — são casas com a porta aberta, onde o pequeno-almoço cheira a pão que saiu do forno há meia-hora e o requeijão ainda está quente. Não há recepção, há a D. Amélia que deixa a chave debaixo do capacho e diz: «Se precisar de alguma coisa, é bater à vizinha.» Fica-se aqui para caminhar sem roteiro, para comer onde houver mesa posta, para perceber que gastronomia com pontuação alta não é em restaurante — é na cozinha onde o molho de tomate está a fogo baixo desde as sete da manhã.
À tarde, a luz bate na parede caiada e o ramo da oliveira desenha na parede uma sombra que parece mapa de um lugar que ninguém ainda descobriu. Sobre a mesa de pedra, o queijo está ali como quem diz: «Leve-me, mas devagar, que eu levei tempo a chegar até aqui.»