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Pombeiro da Beira: o regresso ao título de vila
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O sino da Igreja Matriz soa sobre o adro ainda em obra, onde a cal fresca contrasta com o granito cinzento das ombreiras quinhentistas. Pombeiro da Beira acorda devagar: fumo de lenha ergue-se de alguma chaminé na Roda, o murmúrio da ribeira desce do Salgueiral e, no largo da Feira de Maio, os taipais metálicos delimitam o perímetro da requalificação. Aqui, a palavra "vila" voltou a ter peso oficial em dezembro de 2024, quase dois séculos depois de ter sido apagada dos mapas administrativos em 1836. Mas os 903 habitantes nunca deixaram de a usar — coloquialmente, teimosamente, como quem guarda uma certidão de nascimento numa gaveta.
Uma história que se escreve no brasão
O topónimo vem da árvore, o pombeiro, hoje rara mas outrora abundante nestas encostas viradas ao Ceira. D. Manuel I concedeu foral no século XVI e a freguesia manteve tribunal, pelourinho e cadeia até à extinção do concelho. No brasão autárquico de 1996 ficou tudo: o pinheiro, as pombas e as cunhas heráldicas dos senhores medievais. A Igreja Matriz, Imóvel de Interesse Público, recebe agora 25 634 € da CCDRC para reabilitação — o andaime cobre parte da fachada, mas a porta manuelina permanece acessível. Dentro, a pedra fria guarda o silêncio das naves, a luz entra filtrada pelas vidraças e os bancos de madeira rangem sob o peso de quem entra para acender uma vela ou simplesmente sentar.
Trinta e duas aldeias numa só freguesia
Pombeiro espalha-se por 32,65 km² e cerca de três dezenas de lugares — Roda, Covais, Picadoiro, Salgueiral — ligados por estradas de terra batida onde o GPS hesita e o telemóvel perde sinal. A densidade de 27,66 habitantes por quilómetro quadrado traduz-se em casas solitárias entre pinhais, cortinas de milho e hortas muradas. A população envelhece: 371 idosos para 71 jovens, uma aritmética que se lê nos portões fechados e nos telhados afundados. Mas a rede de aglomerados mantém-se viva, ainda que dispersa, como constelação de luzes vista do Alto da Serra do Salgueiral.
Horizontes que se contam aos dedos
Do miradouro de Santa Quitéria, a 194,5 metros de altitude média mas com cotas mais altas na cumeada, a vista abre-se em leque: Serra da Estrela a nascente, Açor a sul, Caramulo e Lousã recortadas no horizonte ocidental. O vento sopra constante, traz cheiro a resina e a terra seca. Mais abaixo, a Barragem das Fronhas estende a lâmina de água entre margens de xisto — acesso fácil desde a Roda, local de pesca e passeio ao fim da tarde, quando a luz rasante incendeia a superfície. Nas Barreiras do Picadoiro, o arenito branco e rosa esculpido pela erosão forma sulcos e cristas, uma geologia exposta que convida à fotografia de detalhe. (Dica de amigo: leva um casco de cerveja vazio para deixar no miradouro. Já há uma pilha. É tradição. Não perguntes porquê.)
À mesa: queijo, borrego e Dão no copo
A freguesia integra os territórios de quatro produtos protegidos: Queijo Serra da Estrela DOP, Requeijão Serra da Estrela DOP, Borrego Serra da Estrela DOP e Maçã da Beira Alta IGP. Nas tasquinhas locais — poucas, discretas — o queijo amanteigado espalha-se no pão de centeio, o borrego assado chega à mesa com batata murcha e alecrim, a maçã entra na sobremesa ou na aguardente. A região vinícola do Dão estende-se até aqui, e as provas de vinho concentram-se em Arganil, a 13 km, onde as enotecas guardam garrafas de Touriga Nacional e Encruzado. Nos oito alojamentos registados — moradia, quartos, estabelecimento de hospedagem — o pequeno-almoço inclui requeijão fresco e compota caseira.
O que fica
Quando o andaime da igreja for retirado e o largo da Feira de Maio reabrir com pavimento novo, Pombeiro da Beira continuará a soar a sino ao meio-dia, a cheirar a fumo de carvalho e a estender-se por dezenas de lugares que nenhum mapa turístico consegue enumerar. O que fica na memória não é um postal, mas o ranger de um portão de madeira na Roda, o frio húmido da pedra manuelina sob a mão, o sabor persistente do queijo curado e a vastidão silenciosa vista do Salgueiral — onde quatro serras se tocam no horizonte e o vento nunca pára.