Artigo completo sobre Cadima: água romana e memórias de um concelho perdido
Nascentes milenares, foral manuelino e a história de uma vila que já teve mar à porta
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O primeiro sinal de Cadima não vem pela vista — vem pela pele. A água brota fresca dos Olhos da Fervença como quem abre a torneira às seis da manhã, e de repente está tudo húmido: as valas, o ar, até a conversa. Plínio já cá andava — chamava-lhe Campo Catinense, que soa a nome de clube de futebol romano — mas o que importa é que a nascente ainda está lá, a debitar como se o tempo fosse um detalhe. O som é de lavadora esquecida no ciclo contínuo: chá, chá, chá, entre pinhais e olivais que parecem ter sido pintados por além com um pincel grosso.
Quando Cadima olhava o mar
Dizem que Cadima já teve praia. Parece brincadeira de tasca, mas é verdade: até 1910, a freguesia ia dar ao mar em Tocha. Imaginem — sair de casa, passar no café do Zé, atravessar as dunas e estar na água. Depois levaram-lhe o litoral, fizeram-lhe uma cirurgia geográfica, e ficou com o que vê: colinas, vinha e a Fervença. Ainda assim, guarda o foral de D. Afonso Henriques (isso ninguém lhe tira) e a igreja com duas torres gémeas que parecem irmãs a discutir quem é mais alta. Por dentro, João de Ruão espalhou santos em relevo como quem deixa post-its dourados. À volta, escondidos nos caminhos, estão os extras: capela de Santo Amaro que só os da Quintã sabem onde fica, fontes romanas que ainda servem para encher garrafões, e uma mamoa das Moreiras que é basicamente o primeiro andar da história local — enterros do tempo em que ainda não havia cemitério nem Facebook.
A água que alimenta dezoito freguesias
Os Olhos da Fervença não são poéticos — são úteis. Abastecem dezoito freguesias, o que quer dizer que metade do concelho bebe aqui o café. No verão, a praia fluvial enche-se de toalhas de rugby e crianças que só saem da água quando a mãe ameaça ir embora. No domingo a seguir ao 15 de agosto, o Grupo Típico de Cadima monta o arraial: cantigas ao desafio, ranchos e um cheiro de sardinha que se sente em São Gião. Em julho o Zambujal põe os pés no chão com o Danças e Cantares; setembro é vez da Coutada celebrar as uvas e do Olho ressuscitar a Feira dos Treze — antigamente comprava-se tudo, desde a foice ao burro, hoje sobrevive em versão instagramável.
Entre Aljuriça e Guímera, os moinhos de água resistem como velhos operários reformados: alguns ainda de pé, outros em ruína, todos com história de trigo e surras de moinheiro. O percurso "Fornos da Cal e Moinhos" é o programa perfeito para quem gosta de andar devagar e ouvir a terra ranger. Ao fundo, a serra de São Gião faz de guarda-costas e, se subir, vê-se Cadima inteira — parece um tapete de vinha e telhados a secar ao sol.
O que se come em terra de vinha e gandra
Vinha em cima de calcário dá vinho que não se deita fora. O leitão cheira antes de chegar à mesa: pele estaladiça, carne que desfia só de olhar. A chanfana é preta como café sem leite e mata qualquer constipação; o sarrabulho parece confusão, mas é ordem no prato — arroz, sangue, cheiro de louro. Há quem prefira polvo à lagareiro: batatinhas a chorar azeite e alho a dizer amém. Para acompanhar, favas à gandaresa, que é basicamente a sopa de pedra mas com mais couve e menos pedra. Em casa, guarda-se broa de milho que serve de prato, de guardanapo e de sobremesa se lhe puser manteiga. Os doces obedecem ao calendário: folar de ovos na Páscoa, broa de Natal que parece tijolo mas é amor, arroz-doce aos domingos para enganar os netos. À saída, uma aguardente que aquece mais que lareira.
2 644 cadimenses espalham-se por aldeias que parecem ter sido esquecidas no tempo — e isso é elogio. Casas baixas, portas pintadas de azul para espantar mau olhado, pátios onde ainda se tece cesto como quem faz tricô. O brasão resume: pinheiro, fonte, mó de moinho — ou seja, o essencial para sobreviver a um domingo sem net. Quando a luz da tarde pousa no olival e a vinha doura de vez, o truque é sentar-se no muro, abrir uma garrafa de Bairrada e deixar falar a água. Cadima não grita — murmura. E quem ouve, volta.