Artigo completo sobre Ourentã: arroz carolino e vinhas da Bairrada
Freguesia de Cantanhede onde o grão do Mondego se encontra com a carne marinhoa e espumantes
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O cheiro a lenha queima-se antes das seis, quando o Sr. Albano acende a salamandra para o pão levedar. Nessa hora, as panelas de Ourentã já estão no tacho: arroz carolino que a D. Fernanda foi buscar à cooperativa de Mamarrosa, porque “o do talho ao lado é bom, mas o do Mondego é outro pé de meia”. O grão médio, que ela sabe de cor, bebe o caldo da chanfana sem desfazer — é ali, entre o fogo brando e a colher de pau, que a freguesia se explica sem discursos.
Vinha, cereal e o resto
São 1836 hectares, mas quem cá vê fala em “quintais”. A terra sobe tão pouco que o Trincadeira parece querer ir dar à estrada. Nas vinhas da Bairrada, o espumante nasce antes do fim do jantar: abre-se a garrafa que o pai deixou engarrafar em ’98, tira-se a rolha com o mesmo descaro que se tira a rolha das memórias. O arroz não é postal — é saco de 5 kg no porta-bagagens, é a D. Lourdes a dizer “leva mais um, que este ano soube a chuva”.
Doces de freira e vinhos de guarda
Nas trouxas de ovos, o segredo é açúcar aos poucos e nunca olhar para o relógio. Quem aprendeu com a freira já não veste batina, mas ainda marca massa com a colher de pau do convento. A chanfana faz-se no pote de barro que o tio comprou em Oliveira do Hospital; vai ao forno depois da missa das dez e só se desencanta à hora do fado na TSF. A morcela de arzinha — sim, arzinha, com zê — leva colorau do irmão que foi para o Fundão e nunca mais voltou, mas manda especiarias todos os anos.
Envelhecimento que se vê
369 idosos, 117 miúdos: são números que se sentem na aldeia. A escola fechou às portas em 2015, mas a padaria abre ainda às sete — e é lá que o Zé Manel vende o pão e os raspões de conversa. As casas vazias não gritam; esperam. Uns dias recebem netos de férias, outros dias recebem chuva pela telha. Mas o ofício não emigra: quem tem mãos para a massa folhada ainda ensina quem quer aprender, desde que leve garrafa de tinto como pagamento.
No fim da tarde, quando a vinha fica cor de ferrugem e o fumo sobe direito como quem não tem pressa, Ourentã não pede visitas. Pedem é que se deixe a porta aberta, que se aceite o copo de aguardiente “pra cortar o diabo” e que se levante a tampa do tacho para cheirar o que a terra deu — antes que o dia seguinte traga outra vez o mesmo cheiro a lenha, o mesmo arroz, a mesma história a repeti-se com jeito de quem gosta do sabor do costume.