Artigo completo sobre Portunhos e Outil: onde a ribeira ditou a vida
A água que moveu moinhos, transportou calcário e guarda memórias de uma revolta singular
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A ribeira de Ançã é estreita e rasa. Navegar? Nem pensar. Mas ainda leva água o suficiente para regar os campos de arroz e encher os tanques dos dois moinhos que restam — um em Portunhos, outro em Outil — ambos agora casas de fim-de-semana.
O nome Portunhos vem mesmo do latim Portunica, documentado em 1080. Não era porto de mar: era ponto de carga onde o calcário extraído nas arribas subia para barcos de pouco calado que o desciam até ao Mondego. Hoje o calçário está esgotado, mas ainda se vê a picada na encosta acima da ponte de Portunhos.
Em 1991, na Pena, um agricultor partiu a enxada num monte de moedas romanas. Duas mil peças, séculos IV-V, agora no Museu de Cantanhede. Nada de lendas: era o pagamento de impostos perdido ou escondido — ninguém sabe.
Enterros dentro da igreja acabaram em 1867. A população da Pena não aceitou. Três dias de tumulto, um morto, cinco presos. O cemitério já existia — ficava a 200 metros. Hoje é só curiosidade: as lápides da igreja estão no chão, usadas como lajes.
Arroz Carolino é mesmo daqui: campos alagados junto à ribeira, semente entregue à cooperativa de Cantanhede. O resto é Bairrada. Carne Marinhoa vem dos pastos de Vale de Remígio, 15 km. O vinho tinto é Bairrada — saídas de celas: Luis Pato, Quinta do Encontro, Niepoort. Prova-se nas caves de Outil: marcação por telefone, 5 €, leva o copo.
População: 1 850, 28 % com mais de 65 anos. A escola de Portunhos fechou em 2016. As crianças vão de autocarro para Cantanhede às 7h30, voltam às 17h. Há café em Portunhos (abre às 7h, fecha às 20h, domingo à tarde fechado) e Outil (só de manhã). Farmácia mais próxima: Cantanhede, 8 km. Hospital: Coimbra, 35 minutos de carro pela A14.
Estradas: N111 até à saída de Portunhos, depois departamental 1037. As duas pontes sobre a Ançã aguentam camião de leite — mais nada. GPS perde sinal no vale; baixa o vidro e pergunta.
Passar aqui é ver a ribeira, os moinhos, as vinhas em socalcos, e perceber que o tempo não parou — apenas não tem pressa.