Artigo completo sobre Onde a estrada romana ainda guia os passos
Duas vilas unidas pela história: das lajes romanas aos retábulos maneiristas do planalto calcário
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O som dos pés sobre lajes gastas é o primeiro sinal. Na Ponte Romana de Condeixa-a-Velha, o calcário polido por séculos de travessias absorve o calor da manhã e devolve-o à pele das mãos quando se toca o parapeito baixo. O Ribeiro de Alcabideque corre por baixo — fino no verão, turvo e apressado no inverno — e o ar traz consigo aquele cheiro particular da água doce a bater em pedra coberta de limo. É por aqui que passavam os peregrinos do Caminho Central Português, vindos de Coimbra rumo a Tomar, antes de a estrada se desviar para a nova vila. E é por aqui, ainda hoje, que começa a leitura deste território.
Duas vilas, uma consagração
O topónimo carrega peso. "Condeixa" pode derivar do latim condita — consagrada — ou do árabe quandixa, e ambas as etimologias apontam para o mesmo gesto: alguém, num tempo remoto, reconheceu neste outeiro ondulado, entre os 80 e os 250 metros de altitude, um lugar que merecia ser nomeado. Condeixa-a-Velha aparece em documentos do século XI, uma das mais antigas povoações do concelho. Durante séculos foi sede de concelho, com câmara própria e cadeia — cujos ferrolhos e grades setecentistas ainda se podem ver na actual sede da Junta de Freguesia. Em 1836, no reinado de D. Maria II, a função administrativa deslocou-se dois quilómetros para sul, para a vila que crescia junto à estrada real. Nasceu Condeixa-a-Nova, e o epíteto "Velha" fixou-se como cicatriz toponímica. A fusão administrativa de 2013 juntou o que a geografia nunca separou verdadeiramente: 2765 hectares de planalto calcário, sobreiros, esteva e ribeiras onde vivem hoje 8741 pessoas.
Pedra sobre pedra, retábulo sobre retábulo
A Igreja Matriz de Condeixa-a-Velha, do século XVI, guarda um retábulo maneirista cuja talha dourada capta a luz oblíqua que entra pelas frestas laterais — uma luz grossa, quase sólida, que parece pousar sobre as figuras esculpidas. A dois quilómetros, a Igreja Matriz de Condeixa-a-Nova responde com o seu frontão barroco do século XVIII, mais teatral, mais aberto à praça. Entre ambas, o tecido de capelas — São Pedro, Santo Amaro, São Brás — pontua o território como estações de um rosário geográfico. No Largo do Toural, o conjunto de casas senhoriais setecentistas forma uma frente de fachadas onde o reboco creme descasca em camadas, revelando a argamassa de cal por baixo, e as portadas de madeira escura rangem com a brisa que sobe do vale. A Casa do Concelho, antiga câmara de Condeixa-a-Velha, acolhe hoje um núcleo museológico com peças de arqueologia romana e etnografia agrícola — alfaias de ferro escurecido, fragmentos de cerâmica, a memória material de quem lavrou esta terra antes de nós.
Chanfana no tacho, tigeladas no forno
O barro é protagonista à mesa. A chanfana de bode à moda de Condeixa coze lentamente em tachos de barro negro com vinho tinto, colorau e os chamados cheiros-da-serra — e o vapor que escapa da tampa traz um aroma denso, quase táctil, que se instala na roupa e na memória. No verão, quando o Ribeiro de Alcabideque baixa e aquece, o ensopado de enguias ocupa o lugar da chanfana, mais leve, mais verde. Nos dias frios, a sopa de nabos com toucinho fumado aquece com uma eficácia que nenhuma lareira iguala. Na padaria O Forno da Vila, as tigeladas de forno de lenha saem com a superfície dourada e trémula, ainda a fumegar, e os bolinhos de São Brás, salpicados de canela, aparecem em montes generosos a cada 3 de fevereiro, quando a Festa de São Brás traz a bênção de pães e a distribuição ritual. Os pastéis de Santa Clara — massa folhada recheada com doce de ovos — completam uma doçaria que deve tanto ao convento como à cozinha doméstica. E há quem, nas traseiras de certas casas, mantenha pequenos alambiques onde se destila licor de medronho e de casca de laranja, com o cuidado artesanal de quem não tem pressa.
A levada e o Mondego ao longe
O Trilho da Levada (PR1 CNX) parte de Condeixa-a-Velha e segue seis quilómetros — ida e volta — até à nascente da levada medieval, por entre arvoredo de ribeira onde se ouvem chapins e alvéolas antes de se verem. O caminho é fresco mesmo em julho, sombreado por amieiros e salgueiros que filtram a luz em manchas verdes-claras sobre a terra húmida. No planalto, a vegetação muda: esteva, com o seu perfume resinoso e pegajoso, e sobreiros de casca arrancada em tons de ferrugem e salmão. Do miradouro do Cruzeiro, no cimo do monte onde se ergue o cemitério, a paisagem abre-se sobre o vale do Mondego — uma extensão de campos cultivados e linhas de água que se perdem na bruma da Bairrada. A zona envolvente ao castro romano integra a Rede Natura 2000, com protecção especial da fauna nocturna, o que significa que, ao anoitecer, a escuridão é real e densa, e o céu devolve estrelas.
Peregrinos, romeiros e um automóvel a vapor
Dois caminhos de Santiago cruzam esta freguesia — o Caminho Central Português e o Caminho de Torres — e o circuito de interpretação entre a Ponte Romana e o Largo do Toural, com placas informativas, permite percorrer em meia hora o que os peregrinos medievais calcorreavam com os pés descalços. No terceiro domingo de setembro, a Romaria de Nossa Senhora da Piedade inverte a escala: milhares de romeiros vindos de Coimbra e da Bairrada enchem as ruas, e a procissão sobe do centro de Condeixa-a-Nova até ao alto do Calvário num cortejo lento e solene. Na semana da Páscoa, a Festa do Folar traz concurso de folares caseiros e animação popular. Em julho, a Noite das Cantigas enche o Largo da Igreja Velha com concertinas e ranchos folclóricos, e o som reverbera contra as paredes de pedra como se a praça fosse uma caixa de ressonância construída de propósito. E há uma curiosidade que merece nota: em 1902, um automóvel a vapor — propriedade do conde de Condeixa — ligou a estação de Alfarelos à vila, sendo o primeiro que a região viu. A máquina desapareceu; o espanto ficou nos registos do jornal "O Conimbricense" de 18 de Maio desse ano.
Na feira mensal de Condeixa-a-Nova, ao primeiro domingo do mês, o fumo dos tachos de chanfana sobe entre as bancas de fruta e de ferramentas velhas, e mistura-se com o cheiro da esteva que o vento traz do planalto. É esse cruzamento exacto — gordura de bode, resina de mato, calcário aquecido — que nenhum outro lugar replica. Quem inspira fundo, leva Condeixa nos pulmões.