Artigo completo sobre Alvares: vida suspensa a 565 metros na serra de Góis
Freguesia de xisto e silêncio onde vivem 686 pessoas em mais de 100 km² de montanha
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A estrada sobe em ziguezagues apertados; o xisto das paredes toca-se com o espelho do carro. Quando se abre a janela, o ar entra frio e doce, como se viesse direto do voile das castanheiras. Não é só pinheiro: há também o cheiro a matagal pisado, a folha de medronho queimada nas fogueiras de outubro e, se vier no fim da tarde, o fumo da caruma que ainda arde nas chaminés.
Alvares não é uma aldeia só. São várias: Povorais, Pomar, Vila Boa, Alhariz. Cada uma espalhada no seu contraforte, separada por um cabeço ou por um vale onde a ribeira faz ruído mesmo no Verão. Somam 686 habitantes, mas o número não explica o que se sente: ao meio-dia, o silêncio é tão grosso que se ouvem as vacas a mexer as coleiras na serra do outro lado.
As casas não estão "integradas na paisagem" — foram arrancadas a ela. Tijolo de xisto, sim, mas também pedra de granito que veio do mesmo lugar onde agora plantam batatas. Janelas viradas a sul não por regra de arquitecto, mas porque quem as fez sabia que o sol de Inverno só toca duas horas na parede. Os telhados são altos, sim, mas olhe bem: estão carregados de pedra para aguentar a neve que ainda cai em Março e que, em 2005, deixou o Alhariz isolado durante quatro dias.
O património classificado é a Igreja de São Pedro, mas o que vale a pena ver está fora do livro: o forno de Povorais que ainda vai a meio da manhã de sábado, o muro seco que desce ao Pomar feito só para impedir que as cabras do vizinho comam a vinha, a eira onde Dona Madalena ainda bate a nabiça ao luar porque "secar no sol perde cor".
Não há hotéis. Há três casas de família que alugam quartos: uma tem o pão incluído, noutra pode levar o cão, na terceira o anfitrião traz-lhe café à porta às sete e meia porque "a serra não espera". Não há menus turísticos; se lhe oferecerem chanfana, é porque mataram o bode no fim-de-semana. Se for no Outono e chover, talvez encontre cogumelos no prão — não pergunte onde, ninguém diz. Dizem só que é "lá acima", e acima é sempre mais longe do que parece.
Às cinco, a sombra sobe do fundo do vale como água. O vento roda para norte e traz o cheiro a terra quente a arrefecer. Nas aldeias, acendem-se primeiro os candeeiros das cozinhas; depois, pontuais, as lareiras. O fumo sobe direito, sem se misturar, porque aqui não há correntes de ar que o empurrem. Às oito, o céu é tão limpo que se vê a Via Láctea reflectida no tanque da praça. O sino da igreja toca nove horas. Ninguém olha para o relógio: sabe-se que são nove porque o cão do Sr. António ladra sempre depois do último badalo.