Artigo completo sobre Seixo: Remo, Enguia e Talha Dourada no Rio Pranto
Freguesia de Mira onde a pesca ancestral do estavito e os espigueiros contam a vida junto ao rio
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O remo bate na água escura do Pranto, som abafado que ecoa entre os amieiros. Ao amanhecer, quando o nevoeiro ainda não levantou, há homens que preparam o estavito — rede em V fixada na corrente — para a pesca da enguia. A mesma técnica ancestral que os avós ensinaram, braços mergulhados até ao cotovelo na água gelada de Fevereiro, dedos ágeis a atar a malha às estacas de salgueiro. Este é Seixo, freguesia onde o rio dita o ritmo das estações e a pedra — saxum, no latim que deu nome ao lugar — aflora nos campos de sequeiro entre sobreiros e azinheiras.
Talha dourada e cânticos de porta em porta
A Igreja Matriz de São João Baptista ergue-se no centro da aldeia, fachada branca que reflecte a luz de meio-dia. Construída no século XVIII sobre os alicerces de um templo românico, conserva retábulos barrocos onde a talha dourada captura a luz das velas, iluminando painéis de azulejo que narram episódios da vida do santo. No adro, o cruzeiro granítico do século XIX projecta sombra comprida sobre a calçada irregular. A poucos passos, a Fonte de São João — lavadouro barroco em pedra lavrada — mantém a água corrente onde ainda se lavam alguns cobertores de lã nos dias quentes de Junho.
No Natal, os "Cânticos ao Menino" percorrem as ruas numa procissão de vozes. Grupos de vizinhos batem à porta, cantam versos alusivos ao nascimento de Cristo, recebem bolachas de amêndoa e um copo de jeropiga antes de seguirem para a casa seguinte. Maria da Conceição Lopes, mestra e colectora de cantigas tradicionais que colaborou com o Museu de Etnografia de Coimbra, registou durante décadas estas melodias que atravessaram gerações sem partitura, apenas memória e repetição.
Espigueiros e moendas de pedra
Ao longo dos caminhos rurais entre muros de pedra seca, contam-se cerca de trinta espigueiros — estruturas de madeira elevadas sobre pilares de granito, onde o milho seca ao vento sem apodrecer. Uma das maiores concentrações do concelho de Mira. Entre Seixo e Gatões, a rota pedestre atravessa campos onde ainda funcionam quatro lagares de azeite, moendas de rodízio em pedra e madeira que trituram a azeitona pelo método tradicional. O cheiro a bagaço fresco impregna o ar em Novembro, misturado com o fumo dos fornos de lenha onde assam os bolinhos de chouriço.
Caldeirada que sabe a Pranto
A gastronomia de Seixo tece-se entre o rio e a terra. Caldeirada de enguias do Pranto, peixe cozinhado com cebola, tomate, coentros e vinho branco, servida em tigelas de barro que queimam as pontas dos dedos. Arroz de lampreia na Primavera, quando sobem do mar para desovar. Ensopado de cabrito com hortelã nos domingos de Verão, acompanhado de pão de milho de leite — côdea estaladiça, miolo húmido e amarelo. Na mesa, requeijões de ovelha e queijo fresco de cabra envolto em folhas de figueira. Nos tabuleiros das festas, ovos moles de Aveiro em formato de concha — produto IGP trabalhado artesanalmente na pastelaria local — e trouxas de ovos que derretem na língua, doçura concentrada de gemas e açúcar.
Caminho de água e luz
O trilho pedestre "Caminho do Pranto" segue o curso do rio por seis quilómetros até à praia fluvial de Palheiros. Sob as copas dos freixos e salgueiros que formam túneis de sombra, o caminho cruza-se com o Caminho de Santiago da Costa — pegadas de peregrinos que atravessam a freguesia rumo a norte, bordões batendo no empedrado. Nas margens, garças-reais imóveis vigiam a corrente, martins-pescadores riscam o ar em mergulhos súbitos. De vez em quando, rastros de lontra na lama húmida.
Na última semana de Junho, a romaria de São João Baptista enche a aldeia de música. Procissão ao cair da tarde, missa campal no adro, depois o arraial com concertinas e violas até a madrugada apagar as últimas brasas das sardinhas assadas. Em Agosto, a "Festa da Castanha" perfuma o ar com fumo doce — castanhas rebentadas na grelha, cascas que estouram, polpa quente servida em cartuchos de papel pardo, acompanhadas de jeropiga caseira que aquece a garganta. O problema é que, nos últimos anos, só há festa quando o dinheiro da câmara chega. Em 2022, não houve — e as castanhas foram assadas na porta de cada casa, o cheiro ainda assim percorreu as ruas.
O estavito balança devagar na corrente do Pranto, malha tensa à espera da próxima enguia. Ao fundo, o sino de São João Baptista marca as seis da tarde. Entre a pedra e a água, Seixo respira.