Artigo completo sobre Liceia: Arroz Carolino e Carne Marinhoa no Baixo Mondego
Freguesia de Montemor-o-Velho onde as lezírias ditam o ritmo e a gastronomia IGP marca território
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O cheiro a terra molhada sobe dos campos como quando se abre a porta da cave onde o pai guardava as batatas. Liceia estende-se num território onde o relógio é o arroz: em Maio, os campos transformam-se em espelhos que reflectem o céu; em Agosto, secam e mostram o verde-esperança das espigas. A paisagem é plana como uma toalha de mesa bem esticada — uma linha de eucaliptos ao fundo, casas baixas que parecem encolher com o vento, e a torre da igreja que lá está mas não se impõe.
O arroz que não é branco, é Marinhoa
O tal arroz Carolino do Baixo Mondego é tipo aquele primo que ninguém convém para as fotos mas depois é o primeiro a ajudar na mudança. Tem um perfume adocicado, quase a noz-moscada, e uma cremosidade que faz o italiano parecer pão-de-forma. Nas cozinhas locais, não é acompanhamento — é o prato. Metem-no nas caldeiradas como quem mete o pé na porta: para ficar. E se aparecer Carne Marinhoa no mesmo tacho, é como juntar o tio contador de histórias com o tio que sabe fazer vinho — resultado garantido.
Onde os velhos ainda ensinam os nomes das estradas
São 1051 almas, 304 com mais de 65 anos. Isso quer dizer que há quem ainda chame à rua principal "o caminho de casa do Zé Manel" e explique onde era o moinho como quem indica o sítio onde perdeu o dente da frente. As 102 crianças andam de bicicleta sem marca, jogam à bola no terreno baldio onde o gado pastava no dia anterior. A escola primária tem mais professoras que alunos — mas abre-se sempre, como o café que serve imperial às nove da manhã.
A altitude é 56 metros, o que em Lisboa nem dava para ver o Tejo. Aqui, serve para perceber se o Mondego vem cheio ou se ainda vai demorar. Não há miradouros com guardanapos de papel a voar. Há antes o lugar no muro da igreja onde se senta para ver o trator do Joaquim a virar ao fim do dia, puxando um cheiro a gasóleo que mistura com o da eira de milho.
Venha, mas não leve pressa
Liceia não tem postcards. Tem a mercearia onde a D. Alice pergunta "quem é teu pai?" a qualquer estranho. Tem a festa da Senhora da Saúde em Outubro, onde o arroz de sarrabulho é servido em tigelas de barro que a filha do padre trouxe de Alcobaça. Não há roteiro. Há é o conselho de ir ter com o Sr. António às sete da manhã, quando ele rega o horto — ele explica-lhe porque é que o arroz desta terra não desmancha nem fica pastoso, e faz-lhe o desenho do próprio campo no chão de cimento, com um pau de medlar.
Venha de carro, venha de bicicleta, mas não venha de saltos. O chão é irregular como a conversa do tio Albino depois do jantar. E leve estômago — porque se der por si a ser convidado para almoçar, dizem logo "ó Zé, vai lá buscar mais uma garrafa", e não há forma de recusar sem ofender a matriarca.
À tarde, quando o sol se põe atrás dos eucaliptos e os arrozais alagados parecem tábuas de xadrez de cobre, vai perceber o que é isto: não um sítio que se visita, mas um que se sente no estômago e na memória — como a ressaca boa de um jantar que durou até às tantas, com gente que conheceu nessa noite mas que já parece de sempre.