Artigo completo sobre Aldeia das Dez: xisto, fósforos e silêncio na serra
Aldeia das Dez, em Oliveira do Hospital, Coimbra, ergue-se a 600 metros de altitude com casas de xisto, vestígios romanos e história da indústria dos fósfo
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O sino da torre de São Bartolomeu solta uma pancada grave que desce pela encosta e se perde no vale do Alvôco antes de qualquer resposta. Depois, só o vento entre as paredes de xisto escuro, esse murmúrio seco e constante que percorre as ruas estreitas como se procurasse alguém. A quase seiscentos metros de altitude, na encosta norte do monte do Colcurinho, quatrocentas e setenta e quatro pessoas (dados de 2021) partilham um anfiteatro de pedra e silêncio virado a norte, para o vale onde o rio corre sem que daqui se lhe ouça a água. A manhã chega devagar, primeiro como uma tira de luz branca entre os quartzitos do Geopark Estrela, depois como um calor tímido que demora a vencer a humidade presa nas paredes de xisto — essa humidade que escurece a pedra e lhe dá o tom de ardósia molhada que define a paleta visual de toda a aldeia.
O lugar que não tinha nome
Antes de se chamar Aldeia das Dez, isto era apenas "lugar dalldea" — assim consta no Cadastro da População de 1527, com quarenta e nove moradores e nenhum apelido que a distinguisse. O sufixo "das Dez" surgiu algures entre os séculos XVI e XVII: a hipótese mais aceite aponta para a evolução do sobrenome medieval "Diez" — Dias — que terá ficado colado ao topónimo, embora a lenda insista em dez mulheres que teriam encontrado um tesouro oculto no Colcurinho. Lenda ou etimologia, o certo é que o povoamento remonta muito antes do papel e da tinta: nas proximidades, vestígios de um castro luso-romano confirmam a presença humana desde a época pré-romana, e troços de uma calçada romana que ligava à vizinha vila de Avô ainda se percorrem hoje, com as pedras gastas e irregulares a exigirem que se olhe para o chão em vez do horizonte.
A freguesia só ganhou existência canónica em 1543, quando o bispo de Coimbra, D. Jorge de Almeida, a desanexou de Avô. Houve um breve regresso à dependência de Santa Maria de Avô entre 1594 e 1602 ou 1603, mas a autonomia consolidou-se depois e nunca mais se perdeu. Até 1899, porém, a aldeia vivia num isolamento quase completo — foi preciso esperar pela conclusão da estrada municipal que a liga à Ponte das Três Entradas para que o mundo exterior se aproximasse de facto. Curiosamente, a iluminação pública chegou muito antes, a 24 de Dezembro de 1812, uma véspera de Natal que deve ter transformado estas ruas de xisto num presépio de luz inédita.
Fósforos na montanha
Há uma história industrial improvável nesta aldeia de montanha. Na década de 1860, Aldeia das Dez tornou-se um centro produtor de fósforos — duas fábricas que empregavam cerca de cinquenta operários. Em 1890, uma delas trabalhava já com fósforo de segurança, tecnologia inovadora para a época em Portugal. Imagina-se o cheiro acre do enxofre a misturar-se com o fumo de lenha das lareiras, o ruído repetitivo das máquinas a contrastar com o silêncio ancestral do vale. A antiga fábrica ainda existe, convertida em habitação particular, e quem passa diante dela sem saber a história vê apenas mais uma casa de xisto. Mas as paredes guardam um capítulo raro da arqueologia industrial beirã.
A cúpula bolbosa de São Bartolomeu
A Igreja Matriz ergue-se como o coração gravitacional da aldeia. Construída entre 1727 e 1764 sobre um templo medieval anterior, tem nave única e cinco altares barrocos cujo dourado contrasta com a penumbra fresca do interior. Na parede, uma pintura maneirista representa o martírio do padroeiro — São Bartolomeu, esfolado vivo — com um realismo que obriga a desviar o olhar antes de voltar a ele. A torre sineira, de pedra aparelhada, remata numa cúpula bolbosa que destoa do xisto circundante e se avista desde vários pontos do vale, como um farol de granito apontado ao céu da Serra do Açor. Na sacristia, uma rara representação de São Teodoro completa um espólio iconográfico pouco comum em aldeias desta dimensão.
A poucos passos, a Capela do Calvário, do século XVIII, guarda esculturas quase em tamanho natural de Cristo, Nossa Senhora e São João — figuras que na meia-luz parecem respirar, os rostos polícromos manchados pelo tempo.
Quartzitos, borrego e queijo da Serra
O monte do Colcurinho, integrado no Geopark Estrela, oferece afloramentos quartzíticos que emergem do solo como ossos brancos da montanha, contrastando com o verde escuro dos matos. A EM-508 corta a freguesia e funciona, ela própria, como miradouro: ao longo das curvas, o vale do Alvôco abre-se em camadas sucessivas de azul e cinza, dependendo da hora e da neblina. A praia fluvial mais próxima — Alvoco das Várzeas — fica a escassos quilómetros, e a quatro quilómetros e meio encontram-se as Caldas de São Paulo, para quem quiser trocar o xisto pela água termal.
A mesa desta zona da Beira respira denominações de origem. O Borrego Serra da Estrela DOP, assado lento até a pele estalar, a Maçã da Beira Alta IGP que amadurece nas encostas em redor, o Queijo Serra da Estrela DOP com a sua crosta alaranjada e interior quase líquido, e o Requeijão Serra da Estrela DOP, mais suave, servido com mel ou comido às colheres sobre pão de centeio. Tudo isto acompanhado, naturalmente, por vinhos da região do Dão — tintos densos que pedem a temperatura fresca destas noites de montanha.
Caminhar devagar entre paredes escuras
O núcleo antigo pede uma caminhada sem destino. As ruas são estreitas, o xisto escurece com a chuva e clareia com o sol rasante da tarde, e os treze alojamentos disponíveis — entre albergues e moradias — garantem que a aldeia nunca transborda de gente. A densidade populacional, pouco acima de vinte e cinco habitantes por quilómetro quadrado, traduz-se numa quietude quase táctil. Dos quatrocentos e setenta e quatro residentes, duzentos e dois têm mais de sessenta e cinco anos e apenas trinta e um são crianças — números que se sentem no ritmo pausado com que uma porta se abre, uma voz cumprimenta, um gato atravessa a rua sem pressa alguma.
Ao fim do dia, quando a luz abandona o vale do Alvôco e a cúpula bolbosa de São Bartolomeu se recorta contra um céu cor de ardósia, o ar traz um frio húmido que cheira a terra, a musgo e, se alguém acendeu a lareira, a carvalho a arder. É esse o último cheiro antes do sono — não o enxofre dos fósforos que já não se fabricam, mas a madeira que sempre aqui esteve e que, de certo modo, continua a ser o combustível verdadeiro deste lugar.