Vista aerea de Bobadela
DGT - Direcao-Geral do Territorio · CC BY 4.0
Coimbra · CULTURA

Bobadela: ruínas romanas no coração da Beira Alta

Portal de dois mil anos e anfiteatro revelam a Splendidissima Civitas da Lusitânia em plena serra

704 hab.
426 m alt.

O que ver e fazer em Bobadela

Património classificado

  • MNRuínas romanas de Bobadela
  • IIPAnta do Pinheiro dos Abraços
  • IIPPelourinho de Bobadela
  • IIPPonte romana de Bobadela

Produtos com Denominação de Origem

Festas e romarias em Oliveira do Hospital

Junho
Festa da Cereja Segundo fim de semana de junho feira
Agosto
Romaria de Nossa Senhora da Boa Viagem 15 de agosto romaria
Novembro
Festa de São Martinho 11 de novembro festa popular
ARTIGO

Artigo completo sobre Bobadela: ruínas romanas no coração da Beira Alta

Portal de dois mil anos e anfiteatro revelam a Splendidissima Civitas da Lusitânia em plena serra

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O sol da tarrede bate na pedra e faz o granito cheirar a pão tostado. Sob o arco, o ar fica mais fresco, mesmo em Agosto — uma boca de pedra que respira. Do outro lado, a oliveira centenária ergue-se torta como quem se desperta de um sono longo; os seus frutos verdes, ainda pequenos, pingam goma pegajosa que cola aos dedos das crianças que ali brincam de esconde-esconde entre as pedras caídas. Aqui, no coração da Beira Alta, Bobadela não é só ruínas; é o cheiro a terra queimada depois da poda, é o som seco das pegadas sobre a calcada, é o gosto acre da oliveira quando se parte uma folha entre as unhas.

A cidade que foi Splendidissima

Chamavam-lhe Splendidissima Civitas e o nome não é exagero. A inscrição, agora dentro do Centro de Interpretação, esteve durante décadas encostada à parede do ante-coro da igreja, servindo de escadote para subir ao coro. Júlia Modesta, cuja epígrafe se leu ao deus-dará durante anos a fio, era conhecida pelos mais velhos como "a pedra da comadre Amélia", porque foi lá que Amélia Dias se sentou para amamentar o filho, enquanto esperava o marido que vinha da feira de Oliveira. Só em 1878 é que alguém percebeu que valia mais do que ser banco de igreja. Ainda hoje, quando passo por lá, lembro-me do cheiro a cera derretida e a incénso que se misturava com o pó das pedras — memória de missas setonais onde se rezava por chuva e por filhos.

A Ponte Romana não é só um arco de pedra; é o sítio onde os miúdos aprendem a nadar, de verão, saltando do parapeito mais baixo para a água escura que cheira a musgo. A corrente é fria, mesmo em Julho, e há sempre um avozinho de toalha ao ombro a gritar para não se vão lá para o fundo, que há buracos. A Igreja Matriz, com a sua porta lateral sempre entreaberta, cheira a madeira antiga e a cera de abelha. Se se chegar mais perto, ouve-se o ranger das tábuas do chão quando o sacristão vai buscar o vestido de Nossa Senhora para a procissão — um som que me faz lembrar o ranger dos joelhos do meu avô quando se ajoelhava no banco da frente.

Vinhos do Dão e queijo da serra

Nas vinhas que sobem atrás da aldeia, o touriga nacional maduro tem a pele fina que estala entre os dentes. Quando se espreme na boca, o sumo deixa os lábios roxos e um sabor a fruta preta que fica no canto da boca o dia inteiro. A chanfana não é para principiantes: a carne de cabra cai do osso, molhada em vinho tinto e cozinhada durante uma noite inteira no fogão de lenha que aquece a cozinha. O cheiro é tão denso que se agarra à roupa — dias depois, ainda se sente no casaco. O queijo, quando está no ponto, escorrega pela colher como creme, com um gosto a terra e a leite quente que me lembra as manhãs em que ajudava o meu tio a ordenhar. O requeijão, com o seu toque azedo, é o que comíamos com pão escuro e mel da serra, sentados à mesa da cozinha, enquanto a chuçaria estalava no fogão.

Caminhar entre ruínas e ribeiros

O trilho que sobe até ao anfiteatro é um atalho que só os da terra conhecem. Passa-se por cima de muros de pedra onde crescem figos-da-India e por cima de uma levada onde ainda há agua correndo, mesmo em Agosto. O cheiro a alecrim e a esteva é tão forte que se sente na garganta. Ao entardecer, os grilos começam o seu canto e o ar fica dourado — uma luz que me faz lembrar os fins de tarde em que a minha avó me mandava buscar as galinhas, enquanto ela preparava o jantar. O rio de Cavalos, com as suas poças de água escura, é onde se aprende a pescar enguias com as mãos — um segredo que se passa de pais para filhos, como o medo de pisar nos olhos de vidro que escondem debaixo das pedras.

A Quinta do Encontro não é só vinhos; é o sítio onde se casam os primos e onde se enterra os avós. A sala de provas tem vista para as vinhas que o meu tio plantou há trinta anos — ele diz que o terroir é bom, mas o que importa é a conversa que se tem enquanto se bebe o vinho. A rota de cicloturismo que liga Bobadela a Lagares é um estradão de terra batida onde se levanta poeira que se agarra aos lábios. Passa-se por moinhos onde o cheiro a castanha torrada ainda se sente no ar, mesmo que as pedras estejam partidas e a porta caída.

O peso do granito e da história

Setecentos e quatro habitantes, dizem os censos, mas quem cá vive sabe que são mais — porque os que partiram para França ou para Lisboa voltam sempre no Verão, enchindo as casas de risos e de cheiro a gasolina das motas novas. Noventa têm menos de catorze anos e ainda jogam à apanhada entre as pedras do anfiteatro; cento e oitenta passaram dos sessenta e cinco e sentam-se à sombra da oliveira a discutir política e a mandar vir com o governo. As casas fechadas são janelas pintadas de azul onde ainda se vêem as pegadas das mãos que as construíram — mãos que agora estão quietas, mas que deixaram na pedra o cheiro a cal e a suor. E quando se passa por baixo do arco, com o sol a bater nas costas, sente-se o peso da pedra — não só a gravidade, mas a memória de quem aqui viveu, de quem aqui chorou e de quem aqui se casou.

Dados de interesse

Distrito
Coimbra
DICOFRE
061104
Arquetipo
CULTURA
Tier
standard

Habitabilidade e Serviços

Dados-chave para viver ou teletrabalhar

2023
ConectividadeFibra + 5G
TransporteComboio a 11.7 km
SaúdeHospital no concelho
EducaçãoEscola básica
Habitação~652 €/m² compra · 3.02 €/m² rendaAcessível
Clima15.7°C média anual · 1066 mm/ano

Fontes: INE, ANACOM, SNS, DGEEC, IPMA

ADN da Aldeia

60
Romance
30
Familia
45
Fotogenia
65
Gastronomia
35
Natureza
40
Historia

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Perguntas frequentes sobre Bobadela

Onde fica Bobadela?

Bobadela é uma freguesia do concelho de Oliveira do Hospital, distrito de Coimbra, Portugal. Coordenadas: 40.3640°N, -7.8850°W.

Quantos habitantes tem Bobadela?

Bobadela tem 704 habitantes, segundo os dados dos Censos.

O que ver em Bobadela?

Em Bobadela pode visitar Ruínas romanas de Bobadela, Anta do Pinheiro dos Abraços, Pelourinho de Bobadela e mais 1 monumentos classificados. A região também é conhecida pelos seus produtos com denominação de origem.

Qual é a altitude de Bobadela?

Bobadela situa-se a uma altitude média de 426 metros acima do nível do mar, no distrito de Coimbra.

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