Artigo completo sobre Nogueira do Cravo: pedra, memória e verbos secretos
Pelourinho manuelino e a linguagem cifrada dos pedreiros marcam esta freguesia de Oliveira do Hospit
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O pelourinho parece um copo de vinho esquecido no balcão: está ali, oitavado, e ninguém lhe toca. As rosetas do capitel são como iniciais apagadas num guardanapo de papel — ainda se adivinha a letra, mas já não se lê o nome. Dá para ver o cheiro à lenha que vem das chaminés: não é metáfora, é mesmo o pinho a crepitar e a dizer à vizinha que o Jorge já está em casa. Nogueira do Cravo não grita; murmura, como quem pede o café em voz baixa para não estragar o jornal.
Quando os pedreiros falavam em código
Já vivi em sítios onde a história é vendida a peso de ouro; aqui é de graça, mas é preciso estar atento. A freguesia tem 2168 habitantes — menos gente do que aquela que aparece num jogo do Sporting — e uma carta de 1258 que a chama Couto de Nogueira. Serve para o que serve: para o Sr. Domingos, que tem 87 anos e ainda guarda a fatura do primeiro trator, isso é conversa de papel. O que lhe interessa é que, quando era miúdo, os pedreiros falavam um patois que nem o padre percebia. Chamavam-lhe “verbos dos arguinas”; era meio português, meio pedra, e servia para pedir um cigarro sem que o patrão soubesse que era para o cigarrinho. Hoje o código morreu, mas ficou-lhe no ouvido aquele som de xisto a bater na praça.
O Pelourinho é o único monumento com estatuto; o resto é trabalho. Fica no largo como um poste que se esqueceu de ir embora. Dizem que foi erguido depois do foral de 1514; o que sei é que, se lhe der com a mão, faz uma ressonância que parece garrafa vazia. A igreja ao lado tem a data marcada na pedra, mas a verdade é que foi remodelada tantas vezes que até a Virgem parece ter cara diferente consoante o século.
Serra, queijo e vinhas do Dão
A altitude marca-se na tosse: 535 m, ar suficiente para o queijo respirar e para o vinho não correr. O queijo da Serra é bom, mas experimente comprá-lo à sexta-feira, depois do mercado, quando o Sr. Jacinto ainda traz o da quinta da mulher — esse não tem selo, tem é gosto a terra. A chanfana é de cabra, sim, mas leve o seu próprio pão: o pão de tabuleiro acaba às 11h, e depois é só desculpa. O vinho do Dão não é para encher copo americanos; é para copo de 2 dl, que cabe na mão e esquenta o dedo mindinho. A maçã da Beira Alta serve para tudo: para a sobremesa, para a compota e para a miúda que vem da cidade e acha que é “ Instagramável”.
Dentro do Geopark Estrela
Entrar no Geopark é como entrar num bar onde toda a gente sabe o seu nome, mas ninguém se lembra de lho dizer. São 1498 hectares, mas o mapa é inútil: as estradas não têm nomes, têm curvas. A Quinta da Encavalada é dos poucos sítios que aceita hóspedes e não pergunta de onde vêm; leve pantufas, o chão de xisto é frio mesmo em agosto. Não há placas, não há gift-shops, há é o Silvestre, o cão que vai com você até à ravina e volta sozinho, porque já sabe que não lhe dão biscoito. O trilho do Carvalhal é fácil: desce-se, bebe-se água na fonte, sobe-se. Leve 50 cêntimos para deixar no tacho do Sr. Aníbal; não é taxa, é agradecimento.
No fim do dia, as luzes acendem-se uma a uma, como postos de gasolina na A1. O fumo sobe direito, o céu fica roxo, e alguém toca uma gaita num fim de terraço que não é concerto — é só o António a ensaiar para a procissão. Nogueira do Cravo não precisa de recomendação; precisa é de tempo. Se lhe der isso, ela dá-lhe um assovio de regresso sempre que o ar da serra lhe apetecer.