Artigo completo sobre Santa Ovaia e Vila Pouca: renascer após o fogo
Duas aldeias de Oliveira do Hospital onde a resiliência rural se mede em rebentos e tradições
Ocultar artigo Ler artigo completo
O fumo sobe em espiral fina da lareira, misturando-se ao cheiro a lenha de carvalho e ao aroma denso do queijo que amadurece no fumeiro. Nas encostas que rodeiam Santa Ovaia e Vila Pouca da Beira, o verde da regeneração florestal disputa espaço com o cinzento das pedras que afloram na terra, marcas de um território que aprendeu a renascer. A 411 metros de altitude, estas duas aldeias unidas administrativamente desde 2013 guardam uma identidade rural que resiste, teimosa como o xisto que aflora nos muros das propriedades.
Terra de cicatrizes e recomeços
Os incêndios de 15 de outubro de 2017 e de 2022 deixaram feridas profundas na paisagem. Na Serra do Açor, as chamas de 2017 percorreram 45 km em menos de 8 horas, atingindo Santa Ovaia pelas 16h30. Destruíram 14 habitações na aldeia, 85% dos olivais e 230 hectares de pinhal. Em Vila Pouca da Beira, o fogo de 2022 queimou 180 hectares em três dias, mas parou a 300 metros do núcleo habitado. Não levaram vidas — facto que a comunidade repete com uma mistura de alívio e orgulho, como quem reconhece que a resiliência se mede também pelo que não se perdeu. Caminhar hoje pelos trilhos rurais que cortam os pequenos vales é testemunhar a obstinação da terra: rebentos novos de carvalho-alvarinho aparecem aos 3 meses, os medronheiros queimados rebentam da base, e nas quintas da Veiga e do Ribeiro já se contabilizam 450 oliveiras novas plantadas desde 2019.
Santa Ovaia aparece em documentos de 1140 como "Sancta Eugenia", referência à invasão muçulmana que destruiu a capela original de Santa Eugénia no século X. Vila Pouca da Beira manteve-se sempre fiel à pequena propriedade — o cadastro de 1864 regista 183 propriedades para 198 habitantes. A fusão administrativa de 2013 não apagou as memórias: a Junta funciona na antiga escola primária de Santa Ovaia (construída 1948, encerrada 1987) e a sede da assembleia é a casa do regedor de Vila Pouca, ocupada pela mesma família desde 1823.
Sabores que atravessam gerações
A cozinha destas aldeias não precisa de artifícios. O Borrego Serra da Estrela DOP que pastoreia nos campos da Quinta do Cabeço é abatido aos 90 dias, assado em forno de lenha durante 4 horas com alecrim da Serra. O Queijo Serra da Estrela DOP produzido na Quinta da Fonte amadurece 60 dias na cave de xisto, desenvolvendo aquela textura amanteigada que se espalha no pão de ácimo ainda quente. O Requeijão é fabricado às quintas-feiras, servido fresco no próprio dia com mel da Serra do Açor. Nas sopas de castanha de outubro, usam-se as da variedade "longal" da herdade do Seixo, contrastando com o fumado da morcela de sangue de porco preto.
A chanfana coze na panela de barro negro de Molelos durante 6 horas, com vinho tinto da casta touriga nacional da Adega de São Gião. A Maçã da Beira Alta IGP "de Santa Ovaia" — variedade reineta — aparece nas sobremesas simples: assada com canela de Ceira, ou em compota com noz de Serra. Não há restaurantes registados, mas as cozinhas privadas perpetuam receitas que nunca precisaram de estar escritas: a Maria do Carmo Domingues, 78 anos, ainda faz o pão de ácimo todos os sábados no forno comunitário de Santa Ovaia, como aprendeu com a mãe em 1958.
Paisagem inscrita na pedra
Integrada no Geopark Estrela desde 2020, a freguesia situa-se na zona de cisalhamento da Falha de Vilarica. O granito das "Pedras Lavradas" — afloramento a 2 km de Vila Pouca — data de 320 milhões de anos. Os caminhos municipais 1 e 2 ligam as duas aldeias num percurso de 7,3 km, passando pelo Portelo da Serra (570 m) onde se avista a Serra da Estrela. Não há trilhos sinalizados para turistas, mas os carreiros medievais existem — como o que desce da Capela de São Sebastião até ao Ribeiro de Alva, calçado em xisto há 400 anos.
A ausência de festas populares registadas não significa silêncio total. A procissão de São Sebastião acontece a 20 de janeiro em Santa Ovaia desde 1755, quando se atribuiu ao santo ter protegido a aldeia da peste. Em Vila Pouca, a bênção das fogueiras de São João mantém-se desde 1923, quando o regedor António Augusto Ferreira instituiu a tradição depois de bons anos agrícolas. Não há romarias que encham as ruas, mas na noite de 23 para 24 de junho ainda se acendem três fogueiras: uma na lagoa da aldeia, outra no adro da igreja, a terceira no terreno da antiga escola.
O sino da igreja de Santa Ovaia — fundido em 1892 na fundição de Porto — toca às 7h30, 12h e 19h, cortando o silêncio denso da tarde. Nas encostas, o vento traz o cheiro a terra molhada da última chuva, misturado ao fumo das lareiras que nunca se apagam completamente. É esse aroma — lenha, humidade, resina de pinheiro novo — que fica na roupa e na memória, marca olfactiva de um lugar onde 846 pessoas continuam a escrever-se entre cinzas e rebentos.