Artigo completo sobre Espinhal: vida a 530 metros na transição da Beira
Planalto ventoso entre planície e serra, onde 733 habitantes partilham três mil hectares de silêncio
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A estrada que sobe e o cheiro que avisa
A estrada sobe em ziguezagues apertados e, antes de ver Espinhal, cheira-se o lugar: primeiro o pinho depois de chuva, depois o fumo de eucalipto que escapa das chaminés. São 529 metros que se ganham depressa; o ouvido tampa-se como num avião e o estômago dá um salto. Aí, o ar fica mais fino e o tempo desanda: o relógio do telemóvel continua a dar as horas, mas o corpo acusa outro ritmo — o das galinhas que atravessam a estrada sem pressa e o das vacas que se ouvem mas não se vêem.
O vazio que pesa
733 almas distribuem-se por quase três mil hectares. Tradução: há lugares onde o silêncio é tão denso que se sente nos tímpanos. Caminhar pela Rua da Igreja é ouvir o próprio sangue. A casa do canteiro abandonada parece maior do que era quando ainda tinha janelas; a hera entrou pelas frestas e agora é ela que segura as paredes. No banco de cimento em frente ao café, António — 83 anos, dois dentes na boca, camisa de ganga lavada até às fibras — conta que, no tempo do seu pai, "aqui havia tanta gente que se fazia fila para o pão". Hoje o forno fechou e o cheiro a massa fermentada só volta quando alguém decide fazer broa no fogão a lenha.
O queijo que não é de cá mas sabe a cá
O Rabaçal chega de carrinha de Tabua ou de Ansião, embrulhado em papel de estrada. Não é produzido em Espinhal, mas é aqui que se corta à faca de ponta grossa, com a casca ainda húmida, e se come de pé, encostado ao balcão. A primeira fatia arde na garganta; a segunda já sabe a pasto de altitude, a cabra que pastou entre silvas e a ovelha que dormiu ao relento. Acompanha-se com pão de milho seco, tostado no fogão até rachar, e um copo de tinto que o Afonso traz da Bairrada — "nem é grande coisa, mas aquece".
As onze portas e o cão que já não ladra
São onze casas que alugam quartos, mas não há placa à porta. Quem quer ficar pergunta no café ou deixa recado na papelaria. A Dona Amélia recebe em casa dos pais: lençóis de algodão estampado, cobertor de lã da serra e um galheteiro de loiça que ninguém usa. De manhã, o pão vem dentro de um pano de cocar, ainda quente, e a manteiga é tão amarela que parece tinta. Não há wi-fi no quarto, mas há uma cadeira na varanda onde se ouve o corvo antes de o ver. O cão do vizinho já não ladra às estranhas — limita-se a levantar a orelha e a rolar para o lado, como quem diz: fica se quiseres, vá-se lá saber porquê.
O nevoeiro que sobe e o sol que desce
Às cinco da tarde, o nevoeiro sobe do vale como leite a ferver. Primeiro esconde a capela, depois engole o choupo solitário. Quando desce a noite, o céu limpa-se de repente e sobra uma luz dourada que põe os telhados a brilhar como cobre. É nessa hora que o silêncio se faz maior: os tractores já pararam, os filhos que trabalham em Coimbra ainda não chegaram, e só se ouve o estalar da lenha dentro das salamandras. A bruma volta a subir, agora mais fria, e leva consigo o cheiro a terra mole e a folha a apodrecer. Espinhal não tem monumentos, nem miradouro com guarda-corpo. Tem é este instante — curto como um piscar de olhos — em que o mundo lá em baixo desaparece e só fica o cimo da serra, suspenso no ar, como se fosse possível tocar o céu com a ponta do dedo.