Artigo completo sobre União das freguesias de São Miguel, Santa Eufémia e Rabaçal
Conheça a União das freguesias de São Miguel, Santa Eufémia e Rabaçal em Penela, Coimbra. Queijo DOP, moinhos de xisto e património barroco no coração rura
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A crosta do pão de milho estala sob os dedos, ainda quente do forno de lenha. O cheiro a broa mistura-se com o aroma acre do queijo fresco que escorre sobre a tábua de madeira, enquanto ao fundo da rua se ouve o badalar do sino da igreja — três pancadas lentas que ecoam pelo vale do Dueça. Não há pressa em Rabaçal, nem em São Miguel ou Santa Eufémia. Aqui, o ritmo é ditado pelo tempo de cura dos enchidos pendurados nas caves de xisto e pelo compasso da água que corre na ribeira, alimentando açudes que movem moinhos desde o século XVIII.
O queijo que batizou uma terra
Rabaçal é a única freguesia portuguesa que empresta o nome a um queijo com Denominação de Origem Protegida. Desde 1890 que o Queijo de Rabaçal DOP — cilíndrico, baixo, de sabor ligeiramente ácido e textura amanteigada — é mencionado em documentos como «queijo fino de leite de cabra». A coalhada faz-se ainda com cardo, à moda ancestral, e pode provar-se no Centro Interpretativo instalado no antigo lagar de azeite da Cooperativa Agrícola de Rabaçal, onde as paredes de pedra mantêm a frescura mesmo nos dias de Verão. Maria da Conceição Ribeiro, nascida no Largo do Adro em 1903, foi a primeira mulher da região de Coimbra a obter carta de condução de camioneta em 1928, transportando este queijo para a Feira de São Mateus em Viseu, abrindo caminho ao produto que hoje move a economia local. A Feira do Queijo, no segundo fim-de-semana de Abril, traz produtores que estendem as formas sobre bancas de madeira na Praça de São Sebastião, oferecendo provas entre oficinas de fabrico e concursos do melhor queijo fresco.
Três aldeias, uma história tecida em xisto
A união das três freguesias, formalizada em 2013 pelo governo de Passos Coelho, não apagou a identidade de cada povoação. São Miguel conserva a Igreja Matriz do século XVI, onde a talha dourada barroca emoldura um retábulo atribuído a André Gonçalves, e onde um relicário guarda — segundo a tradição — um fragmento de osso do Arcanjo trazido de Monte Sant'Angelo em 1750 pelo padre João de Sousa. Santa Eufémia ostenta um templo setecentista com frontão de pedra de Ançã e, no largo, um plátano oriental plantado em 1862 por José Maria da Silva cujo tronco mede três metros e meio de perímetro, classificado como Árvore de Interesse Público em 1996. Rabaçal, de toponímia árabe que significa «terra de vinha ou pomar», mantém o portal lombardo da sua igreja românica do século XIII e a Capela de São Sebastião, pequeno templo manuelino onde se abençoam ramos de sobreiro que os agricultores levam para as eiras no Domingo de Ramos.
Trilhos de xisto e fósseis jurássicos
O Caminho do Xisto que liga as três localidades é pavimentado com lajes extraídas nas pedreiras do Casal do Pinto, onde se distinguem pegadas fósseis de gastrópodes do Jurássico — testemunho de um mar que cobriu esta região há 150 milhões de anos. O Trilho dos Moinhos, sinalizado em sete quilómetros pela Associação de Municípios da Região de Coimbra em 2018, segue a Ribeira de São Miguel entre salgueiros e choupos, passando pela ponte de três arcos de 1745 que ainda abastece o moinho do Sr. António, último moinheiro da freguesia que produz farinha para a broa tradicional. Ao amanhecer, é possível avistar lontras nas margens arborizadas. Mais acima, o anfiteatro calcário da Serra de Sicó ergue-se até aos 553 metros, coberto de esteva e sobreiro, enquanto o miradoura do Castelo de Penela oferece vista panorâmica sobre os telhados de telha de canudo e o vale onde o Dueça serpenteia rumo a Montemor-o-Velho.
Canjas, cascatas e bacalhaus enterrados
A 29 de Setembro, a Romaria de São Miguel percorre as ruas até ao adro, onde a Irmandade do Espírito Santo distribui a canja de galinha com arroz carolino fumegante entre os fiéis. Em Santa Eufémia, a 16 de Setembro, quem der três voltas à igreja fica, segundo a lenda, livre de dores de cabeça durante o ano. O Círio de São Sebastião, a 20 de Janeiro, acende tochas ao entardecer e abençoa os campos. Mas é o Enterro do Bacalhau, no domingo de Quaresma, que arranca gargalhadas: os Compadres de Rabaçal organizam um cortejo satírico que «enterra» um bacalhau simbólico na Rua da Fonte, anunciando a abstinência com batatas cozidas e azeite servidos à porta das casas. Durante a invasão francesa de 1810, os habitantes esconderam o sino da igreja num poço junto ao Cruzeiro, onde foi encontrado intacto em 1834 — sinal de que o engenho local sobrevive a todas as ocupações.
No moinho de vento recuperado pela Câmara de Penela em 2015, o vento bate nas pás de madeira com um ranger ritmado que se ouve do vale. Lá dentro, a farinha cai em cascata fina sobre o alguidar de barro, levantando uma nuvem branca que pousa nos braços e no avental de quem amassa. É esse pó de milho suspenso no ar, iluminado pelo sol que entra pela fresta da porta, que fica na retina quando se parte.