Artigo completo sobre Alfarelos: pão do forno de 1895 e arroz do Mondego
Freguesia de Soure onde um forno centenário ainda coze pão e os campos de arroz descem até ao rio
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O cheiro a lenha queimada sobe do forno comunitário antes mesmo de se dobrar a esquina. É Setembro, e o fumo branco dissolve-se devagar sobre os telhados de telha castanha, misturando-se ao aroma do pão acabado de cozer. Alfarelos acorda com este ritual uma vez por ano — o forno da Rua do Fonte, construído em 1895, volta a aquecer as mãos de quem amassa a massa como se amassasse o tempo. A calcada irregular reflecte a luz matinal, ainda húmida do orvalho que o vale do Mondego traz todas as madrugadas.
Onde os fornos contam séculos
A freguesia guarda no nome a memória da sua vocação antiga: "alfar", forno em árabe, não em latim como se supõe. O forno comunitário de 1895 permanece activo na Rua do Fonte, com a sua cúpula de tijolo vermelho intacta — os moradores marcam semanas antecipadamente para o usar, continuando tradição que remonta pelo menos ao foral de 1514. A Igreja Matriz de São Pedro, reconstruída após o terramoto de 1755, mantém o retábulo barroco de talha dourada que sobreviveu às ordens de D. Pombal. Ao lado, a Capela de São Sebastião — com a sua porta manuelina recuperada em 1998 — serve de ponto de reunião aos domingos quando o padre de Soure vem celebrar missa.
As poucas casas senhoriais que restam — como a Casa do Coreto na Praça da República — exibem brasões de 1873, quando João Maria Correia de Almeida, juiz de fora, mandou construir a sua residência de veraneio. Mas é na ponte de pedra sobre o ribeiro de Alfarelos, reconstruída em 1767 com verbas da Real Junta de Comércio, que a água e a pedra se encontram com a discrição de quem sempre esteve ali.
Arroz, enguias e o Mondego a correr devagar
A planície ondulada, a quarenta metros de altitude, desdobra-se em campos de arroz das Companhias de Irrigação do Mondejo, criadas em 1934. O ribeiro de Alfarelos atravessa a povoação num murmúrio constante antes de desaguar no rio maior. É este território plano, cortado por sapais e canaviais, que alimenta a cozinha local: o arroz malandrinho com enguias do Mondego chega à mesa ainda a fumegar, grão a grão impregnado do sabor da água doce. A chanfana de bode à moda de Alfarelos coze-se no forno de lenha durante horas, até a carne se desfazer ao toque do garfo — a receita vem das matanças de inverno, quando os cabritos eram os únicos animais que as famílias podiam abater. O cabrito assado com ervas aromáticas reparte a mesa com o Queijo Rabaçal DOP, servido ao lado de doce de pêra rocha da quinta do Viso. Tudo aqui respira o Arroz Carolino do Baixo Mondejo IGP e a Carne Marinhoa DOP — certificações que não são apenas selos, mas geografias escritas no paladar.
Caminhos de água e penas
O Caminho do Mondejo, marcado pela Câmara de Soure em 2018, desenrola-se em oito quilómetros entre Alfarelos e Soure, serpenteando por entre sapais onde as garças pousam no Inverno como esculturas vivas. De Outubro a Março, a zona transforma-se em ponto de observação de aves aquáticas — cegonhas, garças-reais, patos-reais que se confundem com o verde dos canaviais. Quem pedala até à praia fluvial de Rebolia percorre seis quilómetros de planície onde o horizonte se alarga e o silêncio só é cortado pelo vento nas canas. Ao entardecer, o cais de Alfarelos — construído em 1952 para descarga de adubos — oferece um dos pores-do-sol mais serenos da região: luz alaranjada que escorre sobre o Mondejo, tingindo a água de cobre.
Festa, fado e compasso pascal
A romaria de São Pedro, a 29 de Junho, enche o adro da igreja de voxes e cheiro a sardinha assada no chão de calçada. A missa campal precede a procissão que percorre as ruas estreitas, seguida de arraial que se estende noite dentro — o Rancho Folclórico de Alfarelos, fundado em 1978, dança até às duas da manhã. No Domingo de Páscoa, o "Compasso" percorre a aldeia, benzendo campos e casas com água benta, tradição que a Associação de Melhoramentos mantém desde 1923. Em Agosto, a noite de "fados e petiscos" organizada pela colectividade local reúne quem canta e quem escuta, num ritual de partilha que Maria do Céu Vieira (1925-2004), mestra de cantares ao desafio, teria reconhecido. A 5 de Janeiro, o cantar dos Reis vai de porta em porta, levando consigo o echo de uma tradição que não precisa de palco — os grupos são formados por vizinhos que ensaiam desde Novembro na sede da colectividade.
A antiga estação ferroviária, inaugurada em 1885, foi um dos primeiros postos de carregamento de arroz do país — funcionou até 1989, quando a linha do Ramal de Alfarelos encerrou. Hoje, o comboio já não pára, mas o fumo do forno comunitário continua a subir — e é esse o sinal de que Alfarelos ainda amassa o seu próprio pão.