Alfarelos
sergei.gussev · CC BY 2.0
Coimbra · CULTURA

Alfarelos: pão do forno de 1895 e arroz do Mondego

Freguesia de Soure onde um forno centenário ainda coze pão e os campos de arroz descem até ao rio

1269 hab.
40.4 m alt.

O que ver e fazer em Alfarelos

Produtos com Denominação de Origem

Festas e romarias em Soure

Maio
Romaria de Nossa Senhora da Esperança Segundo domingo de maio romaria
Junho
Festa de São João 24 de junho festa popular
Agosto
Festa de São Bartolomeu 24 de agosto festa religiosa
ARTIGO

Artigo completo sobre Alfarelos: pão do forno de 1895 e arroz do Mondego

Freguesia de Soure onde um forno centenário ainda coze pão e os campos de arroz descem até ao rio

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O cheiro a lenha queimada sobe do forno comunitário antes mesmo de se dobrar a esquina. É Setembro, e o fumo branco dissolve-se devagar sobre os telhados de telha castanha, misturando-se ao aroma do pão acabado de cozer. Alfarelos acorda com este ritual uma vez por ano — o forno da Rua do Fonte, construído em 1895, volta a aquecer as mãos de quem amassa a massa como se amassasse o tempo. A calcada irregular reflecte a luz matinal, ainda húmida do orvalho que o vale do Mondego traz todas as madrugadas.

Onde os fornos contam séculos

A freguesia guarda no nome a memória da sua vocação antiga: "alfar", forno em árabe, não em latim como se supõe. O forno comunitário de 1895 permanece activo na Rua do Fonte, com a sua cúpula de tijolo vermelho intacta — os moradores marcam semanas antecipadamente para o usar, continuando tradição que remonta pelo menos ao foral de 1514. A Igreja Matriz de São Pedro, reconstruída após o terramoto de 1755, mantém o retábulo barroco de talha dourada que sobreviveu às ordens de D. Pombal. Ao lado, a Capela de São Sebastião — com a sua porta manuelina recuperada em 1998 — serve de ponto de reunião aos domingos quando o padre de Soure vem celebrar missa.

As poucas casas senhoriais que restam — como a Casa do Coreto na Praça da República — exibem brasões de 1873, quando João Maria Correia de Almeida, juiz de fora, mandou construir a sua residência de veraneio. Mas é na ponte de pedra sobre o ribeiro de Alfarelos, reconstruída em 1767 com verbas da Real Junta de Comércio, que a água e a pedra se encontram com a discrição de quem sempre esteve ali.

Arroz, enguias e o Mondego a correr devagar

A planície ondulada, a quarenta metros de altitude, desdobra-se em campos de arroz das Companhias de Irrigação do Mondejo, criadas em 1934. O ribeiro de Alfarelos atravessa a povoação num murmúrio constante antes de desaguar no rio maior. É este território plano, cortado por sapais e canaviais, que alimenta a cozinha local: o arroz malandrinho com enguias do Mondego chega à mesa ainda a fumegar, grão a grão impregnado do sabor da água doce. A chanfana de bode à moda de Alfarelos coze-se no forno de lenha durante horas, até a carne se desfazer ao toque do garfo — a receita vem das matanças de inverno, quando os cabritos eram os únicos animais que as famílias podiam abater. O cabrito assado com ervas aromáticas reparte a mesa com o Queijo Rabaçal DOP, servido ao lado de doce de pêra rocha da quinta do Viso. Tudo aqui respira o Arroz Carolino do Baixo Mondejo IGP e a Carne Marinhoa DOP — certificações que não são apenas selos, mas geografias escritas no paladar.

Caminhos de água e penas

O Caminho do Mondejo, marcado pela Câmara de Soure em 2018, desenrola-se em oito quilómetros entre Alfarelos e Soure, serpenteando por entre sapais onde as garças pousam no Inverno como esculturas vivas. De Outubro a Março, a zona transforma-se em ponto de observação de aves aquáticas — cegonhas, garças-reais, patos-reais que se confundem com o verde dos canaviais. Quem pedala até à praia fluvial de Rebolia percorre seis quilómetros de planície onde o horizonte se alarga e o silêncio só é cortado pelo vento nas canas. Ao entardecer, o cais de Alfarelos — construído em 1952 para descarga de adubos — oferece um dos pores-do-sol mais serenos da região: luz alaranjada que escorre sobre o Mondejo, tingindo a água de cobre.

Festa, fado e compasso pascal

A romaria de São Pedro, a 29 de Junho, enche o adro da igreja de voxes e cheiro a sardinha assada no chão de calçada. A missa campal precede a procissão que percorre as ruas estreitas, seguida de arraial que se estende noite dentro — o Rancho Folclórico de Alfarelos, fundado em 1978, dança até às duas da manhã. No Domingo de Páscoa, o "Compasso" percorre a aldeia, benzendo campos e casas com água benta, tradição que a Associação de Melhoramentos mantém desde 1923. Em Agosto, a noite de "fados e petiscos" organizada pela colectividade local reúne quem canta e quem escuta, num ritual de partilha que Maria do Céu Vieira (1925-2004), mestra de cantares ao desafio, teria reconhecido. A 5 de Janeiro, o cantar dos Reis vai de porta em porta, levando consigo o echo de uma tradição que não precisa de palco — os grupos são formados por vizinhos que ensaiam desde Novembro na sede da colectividade.

A antiga estação ferroviária, inaugurada em 1885, foi um dos primeiros postos de carregamento de arroz do país — funcionou até 1989, quando a linha do Ramal de Alfarelos encerrou. Hoje, o comboio já não pára, mas o fumo do forno comunitário continua a subir — e é esse o sinal de que Alfarelos ainda amassa o seu próprio pão.

Dados de interesse

Distrito
Coimbra
Concelho
Soure
DICOFRE
061501
Arquetipo
CULTURA
Tier
standard

Habitabilidade e Serviços

Dados-chave para viver ou teletrabalhar

2023
ConectividadeFibra + 5G
TransporteEstação de comboio
SaúdeCentro de saúde
EducaçãoEscola básica
Habitação~594 €/m² compra · 3.8 €/m² rendaAcessível
Clima15.7°C média anual · 1066 mm/ano

Fontes: INE, ANACOM, SNS, DGEEC, IPMA

ADN da Aldeia

35
Romance
30
Familia
30
Fotogenia
50
Gastronomia
25
Natureza
20
Historia

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Perguntas frequentes sobre Alfarelos

Onde fica Alfarelos?

Alfarelos é uma freguesia do concelho de Soure, distrito de Coimbra, Portugal. Coordenadas: 40.1490°N, -8.6453°W.

Quantos habitantes tem Alfarelos?

Alfarelos tem 1269 habitantes, segundo os dados dos Censos.

Qual é a altitude de Alfarelos?

Alfarelos situa-se a uma altitude média de 40.4 metros acima do nível do mar, no distrito de Coimbra.

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