Artigo completo sobre Candosa: onde o sino ecoa entre granito e castanheiros
Freguesia de Tábua preserva moinhos em ruína, cruzeiro do século XVI e sistema de rega beneditino
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O sino da igreja bate às três e o som corta o ar como navalha velha — não é eco, é memória que se rasga. Em Candosa, o ruído viaja aos solavancos, salta os muros de pedra seca e morre de joelhos no eucaliptal. Dizem que é o vale que assim o quer: a aldeia está aninhada num anfiteatro de xisto e o vento, quando desce, traz consigo o cheiro das chaminés e o bater de portas que ninguém fechou.
Pedra, água e memória
A igreja de São Martinho não é românica — é antes um arranjo de idades mal casadas: corpo de 1755, campanário de 1932, porta que ranguejou no mesmo lugar desde que se lembra o mais velho. Os azulejos não brilham; estão opacos de pó e dedadas de criança. O sacristão-abade, senhor Antunes, abre o arquivo só quando lhe apetece conversa: tira os livros por camadas, como se descascasse cebola, e conta baptizados aos trambolhões — «aqui nasceu o Tonho do Celeiro, este outro foi para a França e nunca mais deu sinal». No adro, o cruzeiro tem uma lasca no braço esquerdo: foi a tropa alemã, em quarenta e quatro, que o desmentiu com o pára-choques de um camião. A ponte de 1892 aguenta o peso dos tractores, mas já não se atrevem a passar dois de vez — o tabuleiro estremece e a ribeira lá embaixo ri-se, porque sabe que tudo cedo ou tarde cai para ela.
A aldeia dos que voltaram
Nos oitenta, quem regressou trouxe consigo o dinheiro e o medo. Levantaram casas de granito novo, mas puseram janelas duplas e persianas de alumínio — o vidro na telha foi moda francesa que durou três invernos: estalou com a geada, deu entrada à humidade e agora serve de anedota. A densidade baixou, é certo, mas Candosa não está vazia: está é quieta. A rega ainda se faz à vez, guarda-se na cabeça o dia e a hora de cada parcela; quem falta leva com a boca da irmã mais velha — «a água não espera, nem tu, nem eu». «Candosia» só se ouve na boca dos netos do emigrante, gente que nunca escreveu o nome mas o carrega na garganta como quem guarda rebuçado.
Borrego, broa e vinho do Dão
A Tasca da Ladeira abre quando a Laurinda tem vontade — basta ver o Estrelinho à porta: se a cadeira está virada para a estrada, é hoje; se está encostada à parede, esquece. O borrego vai ao forno às seis da manhã, depois da missa domingueira; quem chega tarde come ervilhas com ovo escalfado. O vinho vem num jarro lascado que ninguém ousa trocar: tem a boca marcada pelos dentes do finado Sr. Joaquim, que sempre mordeu a loiça quando bebia. A broa de batata é do forno de lenha da vizinha — pesa na mão e adormece no estômago. Quando acaba o queijo, acabou; não há carta, nem queixas. Em Outubro, faz-se o doce de gila com nozes do quintal; os frascos alinham-se na varanda, tampados com papel de alumínio, e servem de moeda para pagar favores.
Trilhos, névoas e melros
O Caminho dos Moinhos começa mesmo depois do muro da escola fechada: há uma placa desbotada que só se lê se souberes o que procuras. São oito quilómetros de subida, pedras soltas e covas de javali — leva bastão e leva pão com chouriço, porque não há café no meio. A névoa sobe do ribeiro como fumo de cigarro e enrola-se nos tomilhais; os melros não cantam, bicam o chão e fogem à passagem. Quando as amendoeiras floram, a romaria não é passeio — é corrida aos ramos mais baixos para fazer ramalhetes que depois se vendem a dois euros no largo. O miradouro do Cruzeiro tem uma lata de cerveja esmagada no passeio: é o sinal de que o pôr do sol já foi apreciado. Fica o vento frio a cortar a face, o cheiro a eucalipto queimado e, lá em baixo, a ribeira a rosnar baixinho, como quem sabe que o dia seguinte vai ser igual ao que hoje foi.