Artigo completo sobre Covas e Oliveirinha: onde a terra ainda dita o tempo
União de freguesias em Tábua preserva tradição agrícola e gastronomia beirã autêntica
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O aroma a lenha queimada entranha-se na roupa como perfume de avó. Nas encostas, as vinhas não estão "ordenadas" — estão às costelas, como quem diz "chega-te para cá, ó muda, que o inverno é longo". O sino da igreja — é o de Covas, não há outro — bate as badaladas como quem acorda o cão e depois se cala. Mais nada. É a Beira que ainda não percebeu que é interior.
Covas e Oliveirinha: duas aldeias que já iam juntas à feira
A junta oficial de 2013 só veio confirmar o que toda a gente sabia: quem vai de Covas para Oliveirinha (ou vice-versa) desce o mesmo cabeço e leva o mesmo pão de milho no saco. Covas ficou com o nome das depressões onde a chuva se senta; Oliveirinha ficou com a oliveira que ninguém planta há cinquenta anos. Há um único prédio classificado — casa grande com brasão, hoje é de um suíço que vem três vezes por ano — mas a verdadeira arquitetura é o muro de xisto que o Tonho refez depois da tempestade de 2018, pedra a pedra, sem cimento nenhum.
1 232 habitantes, 394 com mais de 65 anos, 113 com menos de 15. Faz as contas: por cada miúdo há três avós. Os tractores têm prioridade nas curvas e os carros aprendem a esperar. Quem quer pressa vai para a N17.
O que se come (e não se vende)
Não há menu turístico. Há é a D. Rosinha que te convida para dentro de casa e pões-te à frente um prato de cabrito que foi ruminar ao lado da vinha onde bebeste o vinho. O queijo é o mesmo que o Edgar leva ao mercado de Tábua à sexta-feira — se chegar tarde, acabou. O bolo borrachão não é sobremesa, é "ó pa, come mais um bocadinho que amanhã já não há". A maçã é a que o Neto vai buscar ao quintal, limpa na manga da camisola. Não precisa de selo IGP, precisa é de dentes.
A paisagem de quem trabalha de sol a sol
Não há trilhos com setas amarelas. Há caminhos de servidão que o Jorge abre com a roçadora antes da Páscoa. A altitude — 276 m — não dá vista para o mar, dá para a horta do vizinho. O Dão começa ali ao fundo, marcado por uma fita de plástico azul que o enólogo esqueceu no outono passado. Se quiseres fotografar, fotografa as mãos da Albertina a apanhar azeitona: são mais antigas que a maioria dos castanheiros.
Onde dormir (e onde não)
Oito alojamentos. Três são casas de família que o filho foi para Lisboa e a mãe alugou para não fechar as janelas. Não há recepção, há a chave debaixo do tacho de barro. Não há pequeno-almoço buffet, há pão da padaria que abre às 7h e queija que ainda está quente. Não há wi-fi, há o café do Zé que fecha quando o Benfica joga e abre quando o galo canta.
Quando virares a esquina
A última luz pega nas chaminés como fósforo mal apagado. O cheiro a chouriça queimar na lareira mistura-se com o vento que traz o vinhedo. Nesse minuto — entre o motor do tractor a arrefecer e o cão do Sequeira a ladrar à lua — percebes que não foste a nenhum sítio. Só chegaste.