Artigo completo sobre Mouronho: Pedra Cinza e Água Entre Serras
Igreja de São Pedro e a ribeira da Moura marcam aldeia a 261 metros de altitude em Tábua
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O som da água chega antes da vista. A ribeira da Moura corre baixa entre as oliveiras, quase um murmúrio contra a pedra, e só se descobre quando já se está a meio da encosta. Mouronho ergue-se acima dela, num ponto onde a terra começa a subir devagar em direcção às serras — 261 metros de altitude que não impressionam no mapa, mas que se sentem no ar mais fresco da manhã, no ângulo da luz sobre os telhados de xisto escuro. Aqui, entre o vale do Alva e as primeiras dobras da serra do Acor, o granito das casas tem a cor cinza-clara de quem foi talhado há séculos, e as ruas estreitas organizam-se sem pressa, como se tivessem crescido da própria terra.
Três visitadores e um telhado com goteiras
A Igreja Paroquial de São Pedro ocupa o ponto mais alto da aldeia. Subir até lá é o melhor mapa de Mouronho: a porta principal em arco ogival abre-se para a única nave e abside quadrangular, mas o que vale mesmo é a vista. Do adro vê-se o vale da Moura e os patamares agrícolas que descem em direcção ao Alva.
Em 1712, 1715 e 1717, três visitadores eclesiásticos chegaram e encontraram sempre o mesmo: infiltrações que impediam missas, paredes a precisar de cal, pobreza que se via no estado da abóbada. Três ordens de reparação, três registos de decadência. A igreja resistiu, foi remodelada, mas o essencial mantém-se: granito, telhado de xisto, e o sino que marca as horas.
O nome que ninguém explica
Mouronho vem do latim murus — muro, muralha. Não resta pedra erguida que o comprove, mas a palavra persiste. A freguesia desenvolveu-se em torno da capela de São Pedro, e durante séculos foi ponto de passagem nas rotas de transumância que ligavam as terras baixas aos pastos altos da Beira. Hoje ainda se cruzam rebanhos na estrada municipal — ovelhas Bordaleiras que descem da serra em maio, cabras que sobem em outubro.
A romaria que pedia chuva
Mouronho não tem festa padroal de grande escala. Partilha com Avó e outras freguesias vizinhas uma romaria colectiva à capela de São Pedro que começou como pedido de chuva. Anos de seca levavam as comunidades a subir a encosta a pé, cantando ladainhas. Os mais velhos lembram-se de ver os pais partir antes do amanhecer, voltar ao fim da tarde com os pés em sangue e a promessa de que "este ano chove". Hoje é memória mais do que prática — mas quando o verno se atrasa, ainda se fala nisso no café.
O que se come
A gastronomia é o que a serra deixa cair: Borrego Serra da Estrela DOP em chanfana nos restaurantes de Tábua (a 8 km), Queijo Serra da Estrela DOP na mercearia Moura (abre às 7h, fecha às 19h, fecha à segunda), Requeijão fresno às quartas e sextas. A Maçã da Beira Alta IGP cai dos pomares que cercam a aldeia — pergunte ao Sr. António na bifana se ainda tem. O pão é de milho ou centeio, denso, e acompanha-se com vinho do Dão que o supermercado Intermarché em Tábua vende a 3,50€.
Como chegar e onde estacionar
De Coimbra: A1 até Condeixa, depois N17 até Tábua, M517 para Mouronho. São 45 minutos. Estacionamento: largo em frente à igreja (15 lugares) ou rua da Escola (7 lugares). Autocarro: linha Coimbra-Tábua-Mouronho, três vezes por dia, paragem no café O Mourão.
Caminhos sem placa
Não há trilhos oficialmente sinalizados, mas os caminhos rurais antigos continuam a desenhar-se entre os pinhais e os olivais. Do largo da igreja, siga a rua de terra batida que desce à ribeira — 20 minutos até à ponte de pedra onde as crianças se banham em julho. Suba depois pelo carreiro dos moinhos — são três, em ruínas, mas o do meio ainda tem a roda. A volta completa à aldeia são 4 km, leva uma hora e meia, leve água porque não há cafés no caminho.
Com 755 habitantes, Mouronho é lugar onde o silêncio se ouve. Quando se desce a encosta ao fim do dia, o som da água volta a ser a última coisa que se ouve — um fio constante que atravessa tudo, desde os tempos em que alguém ergueu um muro até agora.