Artigo completo sobre São João da Boa Vista: vinhas do Dão e vida serrana
Freguesia de Tábua onde o granito guarda memórias e as vinhas sobem pelos socalcos da Beira Interior
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O granito das casas guarda o frio da noite mesmo quando o sol de meio-dia aquece a encosta. Aqui, a 341 metros de altitude, São João da Boa Vista espalha-se por quase mil hectares onde a Beira Interior começa a cheirar a serra. São 393 habitantes — menos de quarenta por quilómetro quadrado — e o silêncio que se instala entre as vozes tem a densidade dos lugares onde ainda se sabe quem é filho de quem.
O peso dos invernos
A demografia conta a história que os números oficiais não dizem: 110 pessoas acima dos 65 anos, 48 crianças e adolescentes. Nas manhãs de escola, o autocarro que sobe da Tábua faz-se ouvir — cada criança que entra representa uma casa que resiste, uma família que fica. Os velhos conhecem os ciclos da terra e da vinha, sabem ler o céu antes da chuva e guardam na cabeça o mapa de quando estas encostas fervilhavam de gente no tempo das colheitas.
Vinhas e queijos da serra
A freguesia integra a região vinícola do Dão, e as vinhas que sobem pelos socalcos produzem uvas que beneficiam da amplitude térmica — noites frescas mesmo em pleno Verão, dias de sol limpo sobre xisto e granito. Nas adegas cooperativas da região, as castas Touriga Nacional e Encruzado transformam-se em tintos encorpados e brancos minerais que levam no rótulo a chancela de uma das mais antigas regiões demarcadas do país.
Mas é a proximidade com a Serra da Estrela que define boa parte da identidade gastronómica local. O Queijo Serra da Estrela DOP — esse cilindro cremoso de pasta amanteigada feito com leite cru de ovelha Bordaleira — chega às mesas em diferentes estádios de cura. O Requeijão Serra da Estrela DOP, mais suave e lácteo, espalha-se no pão ainda quente. O Borrego Serra da Estrela DOP, criado em regime extensivo nas pastagens de altitude, tem carne rosada e sabor delicado, assado lentamente no forno com batatas e alecrim. A Maçã da Beira Alta IGP completa a despensa certificada — variedades como a Bravo de Esmolfe ou a Porta da Loja, colhidas no Outono, crocantes e aromáticas. Tudo isto se arranja na mercearia da aldeia ou na Tábua, a 10 minutos de carro.
Onde o tempo se mede de outra forma
Há dois sítios para dormir: um quarto de alojamento local recuperado numa casa antiga e uma moradia para levar a família. Não há multidões nem roteiros instagramáveis, apenas a possibilidade de acordar com o som dos galos e observar a luz a mudar sobre os vales conforme o dia avança. O nível de dificuldade logística é o de levar o carro abastecido — o próximo café é em Midões, a 5 km — e a densidade turística é tão baixa que vai encontrar lugar para estacionar mesmo em Agosto.
À noite, o café da aldeia às vezes abre, às vezes não. Dependia do Zé, mas ele foi para Coimbra ajudar a filha. Ainda assim, há sempre alguém que acende a luz da cozinha quando o cão ladra — é este som, o latido abafado e a porta a abrir-se, que fica na memória: a prova de que há vida teimosa e digna onde o mapa quase não marca nome.