Artigo completo sobre Poiares: chanfana, rio Alva e memória liberal
Vila entre o monte e a água, com história municipal e tradição gastronómica centenária
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O aroma a barro aquecido escapa das traseiras dos restaurantes ao meio-dia. Dentro dos tachos de argila, a chanfana de bode ferve em lume brando, a carne a desfazer-se entre vinho tinto e banha, numa conversa que dura o que der para durar. Na rua, o som dos garfos na loiça mistura-se com o murmúrio do Alva, que corre para lá das casas mas nunca muito longe. Poiares (Santo André) está neste ponto entre o monte e a água, entre a pedra dos caminhos antigos e os lameiros verdes no fundo do vale.
Uma vila que foi município duas vezes
A história local tem mais reviravoltas que a estrada da Serra do Açor. A 18 de setembro de 1836, o governo de Passos Manuel criou o município de Santo André de Poyares, agradecendo o apoio liberal nas guerras civis. Mas as fronteiras mexiam-se como os jogos de cartas no tasco: em 1855, levaram-lhe território para Penacova, Lousã e Miranda do Corvo; em 1895, acabaram com o município. Três anos depois, a 13 de janeiro de 1898, lá o restituíram, já com o nome de Vila Nova de Poiares. A malandrice da população — e alguns emigrantes no Brasil que não esqueceram a terra — fez o resto.
O edifício dos Paços do Concelho, de 1865, viu tudo isto. Em 1909, o Dr. Alfredo Montenegro — um homem que andava de noite a tratar pobres — conseguiu abrir o Hospital de Beneficência Poiarense. Ainda hoje, os mais velhos dizem que "era doutor e mais alguma coisa". A Igreja Matriz de Santo André, com o seu retábulo barroco dourado, guarda o silêncio de quem já ouviu muita coisa. A luz entra de lado, desenha sombras nas paredes caiadas, e lembra que aqui já rezaram por tudo, inclusive por chuva na altura certa.
Cânticos, filarmónica e romarias
No fim de semana mais próximo de 30 de novembro, a romaria de Santo André transforma a vila. A procissão sai da igreja com a Fraternidade Poiarense, fundada a 8 de setembro de 1874, a mais velha instituição cultural do concelho que ainda toca. Os metais brilham ao sol, os bombos marcam o compasso, e os andores descem a rua Central como quem desce a escada de casa. Nas travessas, a feira monta-se: rebuçados de ovos, doces de gila, castanhas que estalam na lata de óleo. O cheiro a sardinha grelhada mistura-se com o fumo dos pinheiros.
Em janeiro, São Sebastião repete o ritual, mas mais miudinho. Já no verão, é o canto ao desafio que ocupa as noites. Nas festas, improvisam-se versos como quem tira a rolha a uma garrafa — de repente, está aí a poesia. As vozes provocam-se, rimam-se, e o público aplaude quem conseguiu magoar sem ser grosseiro.
O Alva e os moinhos parados
O rio Alva passa ao lado, ladeado por trilhos que levam à praia fluvial de São Sebastião. Pelo caminho, os moinhos de água estão parados, rodas partidas, mós cobertas de musgo. Dá para imaginar o pão que aqui se fazia, quando o pão era notícia. As arribas sobem cobertas de pinhal e eucalipto, e as garças-reais pousam nas pedras como quem espera busca. A oeste, o Buçaco desenha o horizonte. O terreno ondula entre os 100 e os 300 metros, alterna granito e xisto, e o silêncio só se quebra com o vento nas copas ou com o cão do Sr. António, que ladra para o seu próprio eco.
Barro, bode e broa
A chanfana é o que é. Cozida em tachos de barro no forno a lenha, a carne de bode desfia-se no vinho e na banha, e serve-se com broa de centeio que ainda solta vapor. Nos restaurantes, perguntam se é a primeira vez — e se for, explicam que não tem pressa, a chanfana não gosta. Há também enguias do Alva, fritas ou em caldeirada, e a bola de carne, pão recheado com carne de porco que se vai buscar às 8h da padaria, senão acaba. Para ajeitar o jantar, há aguardente de medronho ou licor de ervas da serra, guardado em garrafões de boca larga.
Quando o sol desce e a luz acende os telhados, o cheiro a lenha volta a subir. A filarmónica ensaia ao longe, o Alva rola pedras, e o frio sobe do rio como quem lembra que é inverno. Não se mexe daqui sem perceber que o tempo tem outro relógio — e que ele não se compra nem se vende, só se espera.