Artigo completo sobre São Miguel de Poiares: granito, xisto e silêncio
Freguesia serrana de Vila Nova de Poiares onde o tempo segue o calendário agrícola e os sinos
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A calcada da Rua Dr. Ernesto de Paula range sob os sapatos com o som do granito de Ançã polido por seculos. São Miguel de Poiares estende-se a 256 metros de altitude, numa ondulação suave entre o Ribeiro de Poiares e a Serra do Bussaco — território onde os pinheiros-bravos alternam com hortas muradas de xisto vindas das antigas minas de carvão da Val da Igreja. O silêncio da manhã quebra-se às 7h30 quando o autocarro da AVIC (linha 42) desce para Coimbra com os rapazes que estudam na Escola D. João III.
Uma freguesia entre montanha e planície
Com 1299 habitantes em 20 km², São Miguel de Poiares respira com a cadência de quem espera o 8.º Domingo depois da Páscoa para celebrar as Festas do Espírito Santo. A densidade de 65 pessoas/km² traduz-se em quintais onde se cultiva feijão-verde para vender na Feira de Semana de Poiares — todas as sextas-feiras na Avenida Doutor Luciano de Sousa. Há 351 idosos (65+) e apenas 155 crianças (<14), dados que explicam porque a Casa Paroquial mantém aberto o centro de dia onde Dona Alda serve sopa de nabos às 12h30.
Pedra, cal e devoção
A Igreja Matriz de São Miguel, classificada em 1982, tem campanário com dois sinos fundidos em 1873 na antiga Fábrica de Ferreira de Aves. Dentro, o retábulo de talha dourada de 1724 esconde a imagem de Nossa Senhora da Conceição trazida de Marrazes quando os franceses queimaram o antigo templo em 1810. No adro, o cruzeiro de 1897 marca o ponto onde a Estrada Nacional 17 se cruzava com o Caminho Real que subia para o Porto de Lajeosa. Na Rua da Igreja, a casa n.º 23 guarda ainda o brasão de armas dos Pamplona, senhores das terras até 1834.
Território de caminhadas discretas
O Trilho do Xisto começa na Escola Primária (encerrada desde 2009) e sobe 3,2 km até ao Portela de Poiares, onde se avista o corte rodoviário da A13 que nunca chegou a ser construído. Seguem-se marcos de granito com as iniciais CMVC (Câmara Municipal de Vila Nova de Poiares) datados de 1998. Ao km 1,5, uma sobreira centenária tem cinzeiros cravados onde os pastores deixavam os pratos quando vinham do Curral de Vacas. Ao final da tarde, o melro-d'água canta junto à Levada do Ribeiro, construída em 1953 para regar as hortas de tabaco da Companhia Industrial de Fumos.
Dormir entre muros de xisto
Há seis alojamentos locais: na Rua do Cabo, a Casa da Ladeira tem lareira com tachos de ferro da antiga padaria; na Travessa do Hospital, o quarto n.º 2 do Casa do Lavrador mantém o soalho de castanho de 1932. No Largo do Chafariz, Dona Odete serve pão de centeio do Forno do Pão (aberto desde 1967) com doce de abóbora da Fábrica do Estoril em Vila Nova. A manhã começa às 6h45 quando o Sr. António acende o fumeiro de castanheiro atrás da mercearia — o cheiro da chouriça de sangue curada em sal de Setúbal mistura-se com o fumo das folhas de medronheiro que ainda se colhem no Outão.