Artigo completo sobre Terena: muralhas de Avis sobre a colina alentejana
Vila medieval no Alandroal onde o castelo e a romaria de maio guardam oito séculos de história
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O sol rasante de maio entra em feixe pelas frestas das ameias. No Jardim da República, debaixo das amendoeiras, um grupo de homens conversa baixo enquanto um cão dorme à sombra do pelourinho de mármore — monumento erguido em 1938, quando a vila ainda pertencia ao concelho de Estremoz. O silêncio de Terena não é vazio: tem a densidade de oito séculos de guarda à fronteira, o peso das pedras que os cavaleiros da Ordem de Avis assentaram sobre a colina a partir de 1318, quando D. Dinis lhes concedeu o foral. A cal das casas reflecte a luz com tal intensidade que obriga a semicerrar os olhos — aqui se diz que "a cal é o espelho do Alentejo", e nas ruas estreitas o ar cheira a alecrim e a lenha de azinheira.
A muralha e a palavra
O Castelo ergue-se no ponto mais alto da vila, a 384 metros de altitude. As torres quadradas mantêm-se intactas desde a reconstrução de 1410, mandada fazer por D. João I em agradecimento pelo apoio da vila durante a crise de 1383-85. Os parapeitos percorridos por gatos que conhecem cada fresta. Em novembro, a memória desse tempo regressa em forma de mercado medieval — iniciado em 2003, mas baseado em documentos do Arquivo Nacional da Torre do Tombo que descrevem as feiras de 1431. É na Igreja Matriz de São Pedro, com construção iniciada em 1575 sobre uma capela visigótica, que o gótico-manuelino revela a sua gramática de arcos ogivais e nós de Salomão. No interior em penumbra, a imagem de Nossa Senhora da Boa Nova — trazida, dizem, pelos cavaleiros avisinos no século XIII — repousa num nicho dourado. A primeira semana de maio traz a romaria, documentada desde 1623: procissão lenta sob o sol, missa campal no adro, arraial que se arrasta noite dentro com as marchas tocadas pela Banda Filarmónica de Terena, fundada em 1887.
O fumeiro e a mesa longa
Na cozinha das quintas ainda se mata o porco segundo o calendário lunar — entre Janeiro e Fevereiro, nunca em lua cheia. O chouriço grosso de Estremoz e Borba seca pendurado nas varandas durante três semanas, a farinheira ganha cor acastanhada no fumeiro durante 15 dias, a morcela de arroz espera a sua hora na despensa fresca. À mesa, a açorda de alho com ovos escalfados absorve o caldo a ferver — receita que Maria dos Anjos, de 87 anos, aprendeu com a avó que viveu no Paço de Terena no tempo do Marquês de Pombal. As migas com espargos selvagens colhidos na berme das caminhos entre Março e Abril chegam fumegantes, o ensopado de borrego cozinha devagar em panela de barro de Nisa durante três horas. Quando o peixe do Alqueva sobe até Terena — trazido pelos pescadores de Amieira a 15 quilómetros — transforma-se em sopa de cação com coentros ou lampreia à bordolesa, pratos que exigem tempo e mãos treinadas. A sobremesa é morgado de ameixa d'Elvas DOP, massa compacta e escura que adoça a boca, acompanhada por um tinto de Borba ou Redondo — as duas sub-regiões que compõem o terroir de Terena desde 1908.
Água submersa e trilhos antigos
A albufeira de Lucefecit estende-se a um quilómetro da vila, espelho verde-azulado onde deslizam caiaques desde 2002. Em anos de seca extrema, como 2012 e 2017, ainda se vislumbram os fornos das antigas olarias submersas desde 1951, quando a barragem entrou em funcionamento. Joaquim "O Oleiro", de 94 anos, aponta para as coordenadas GPS onde ficava o forno do pai: 38°47'34.4"N 7°22'12.5"W. O trilho circular Passeio pelo Campo, homologado pela Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal em 2018, atravessa onze quilómetros de montado de sobreiro e azinheira. Os muretes de pedra seca — 847 contados num censo de 2020 — separam propriedades como a Herdade da Aldeia, com escrituras que remontam a 1654. Ao amanhecer, o nevoeiro baixo transforma os sobreiros em sombras chinesas, e o único som é o das bolotas a cair sobre a terra dura — cada árvore produz entre 15 a 20 quilos por ano.
Primeiro domingo de cada mês
A Feira de Antiguidades e Artesanato, autorizada pela Câmara de Alandroal em 1997, transforma o Jardim da República numa pequena babel de objectos resgatados. Jarros de barro rachado da olaria de S. Pedro do Corval — a 12 quilómetros, com produção ininterrupta desde 1865 — misturam-se com arados enferrujados que o Sr. António traz da herdade onde nasceu em 1936. Entre as bancas, o Grupo de Cantares de Terena, com idades entre os 52 e os 78 anos, improvisa um mote: "Ó Terena, minha terra gentil / onde o Alentejo começa a nascer". As crianças correm entre as pernas dos adultos, os idosos sentam-se nos bancos de pedra com sacos de papel pardo cheios de ameixas secas a 3 euros o quilo. O café "O Celeiro", aberto desde 1974, serve bicas a 60 cêntimos — o preço mais baixo do concelho.
Quando a tarde aquece e as sombras encolhem até desaparecerem debaixo das amendoeiras, resta subir até às ameias e olhar a planície ondulada que se estende até ao horizonte. O Alentejo inteiro cabe nesse rectângulo de pedra e cal, e o vento que sobe do vale traz o eco metálico do sino da igreja — fundido em 1923 na Fábrica de Cacilhas, bate as horas com um atraso de três minutos que ninguém se deu ao trabalho de corrigir.