Vista aerea de Igrejinha
DGT - Direcao-Geral do Territorio · CC BY 4.0
Évora · CULTURA

Igrejinha: o sino de bronze que marca o tempo

Igreja matriz, retábulo dourado e tapete de Arraiolos numa freguesia entre sobreiros e montado

961 hab.
288.5 m alt.

O que ver e fazer em Igrejinha

Património classificado

  • MNAntas da Herdade do Freixo
  • IIPMonte da Abegoaria, incluindo a capela de Nossa Senhora da Piedade, sacristia e zona de habitação
  • MIPIgreja de Nossa Senhora da Consolação, paroquial de Igrejinha

Produtos com Denominação de Origem

Festas e romarias em Arraiolos

Junho
Feira de São João 24 de junho feira
Agosto
Festa de Nossa Senhora da Assunção 15 de agosto festa religiosa
Setembro
Festival dos Tapetes de Arraiolos Setembro festa popular
ARTIGO

Artigo completo sobre Igrejinha: o sino de bronze que marca o tempo

Igreja matriz, retábulo dourado e tapete de Arraiolos numa freguesia entre sobreiros e montado

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O sino repica às sete da manhã e o som não se mede em quilómetros: mede-se na memória de quem acorda com ele. Primeiro abana o ar gelado que se agarra aos sobreiros, depois desce o cabeçolho da serra e entra pelas janelas das casas baixas, aquelas que ainda têm as portas pintadas de azul. Quem o toca é o Sr. Joaquim, 78 anos, mesmo homem que há cinquenta anos foi coadjuvante do padre e hoje sobe sozinho a torre com a chave de ferro que pesa no bolso como um tempo. O bronze é de 1792, mas o som é de agora: é o que faz a rapariga do café levantar-se da cama para mexer o leite, é o que diz ao caseiro que já pode partir para a serra com os cães.

O Retábulo Dourado e o Manto da Rainha

A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição não é grande coisa de fora - cal caiada, portão de madeira que range sempre no mesmo sítio - mas dentro faz-se escuro de repente. Depois os olhos habituam-se e aparece o dourado do retábulo, aquele que fica mesmo ao lado do altar, onde a luz da tarde entra rasante e faz as talhas parecerem estar a arder. Os azulejos não são dos bonitos de Lisboa: são mais grosseiros, com o branco desbotado e o azul que parece ter sido misturado com água da cisterna. Mas contam a história toda, como quem lê em voz alta para quem não sabe ler.

Na sacristia, o tapete de Arraiolos está dobrado ao meio porque não cabe na mesa. 25 metros quadrados que a avó da D. Amélia - que hoje tem 90 anos - começou a bordar aos 15. O desenho é de flores que ninguém conhece, mas que ela diz ter visto num livro de Lisboa. O manto da Nossa Senhora é mesmo da Rainha D. Maria I, mas não parece: o ouro já não brilha, está escuro como o resto, e as crianças que vão à catequese passam a mão por cima sem saber que é de rainha.

A Capela de São Brás fica no meio do nada, mesmo ao pé da estrada que vai para Évora. No dia 3 de fevereiro, as mães levam os filhos para serem benzer contra as "pedras na garganta" - é o que se fazia antes dos antibióticos. A procissão já não tem bombos, tem uma caixinha de música que o sacristão carrega, mas as pessoas continuam a ir porque "sempre se fez assim".

Açorda, Talha e Queijo de Ovelha

O pão da padaria da D. Rosa sai às 12h em ponto. Não tem nome, é "o pão" - aquele que se parte com as mãos e faz estalos quando está bom. A açorda da Taberna "A Cabana" não é de bacalhau todos os dias: é quando o Zé vai a Setúbal e traz um bom naco. Senão é de toucinho, ou de coentros com ovo, o que houver. O vinho de talha não se bebe em taças de vidro: bebe-se em copos de barro que deixam a boca cheia de greda, e quem não está habituado estranha o sabor a terra.

O queijo da D. Albertina é mesmo de ovelha que ela leva para pastar todos os dias. Cura num quarto onde ninguém entra, com uma toalha molhada por cima. Quando está pronto - "quando ele quer", diz ela - leva-se para a feira de terça em Arraiolos, onde fica na banca ao lado do tabuleiro dos figos secos. Não tem etiqueta DOP nenhuma: tem o dedo polegar dela que afunda no centro para mostrar que está mole.

Entre Sobreiros e Abetardas

O montado não é paisagem - é o que dá para comer. Cada sobreiro tem dono, cada azinheira tem história. A Mata Nacional é onde os miúdos iam roubar medronhos e onde agora ninguém entra porque "já não é como dantes". A abetarda aparece quando quer: o Sr. António diz que viu uma em abril, mas pode ter sido um perdiz grande. O Ribeiro de Igrejinha é mais seco que molhado - no Verão só tem água mesmo aí em cima, onde as vacas beijam a água e deixam a terra toda pisada.

O PR4 começa mesmo atrás do cemitério, onde há uma seta pintada numa pedra que quase ninguém vê. São oito quilómetros que se fazem em três horas se for depressa, mas ninguém tem pressa. A meio caminho há uma casa de cortiça em ruínas onde se pode sentar, e se levar moscatel daquele da garrafa de plástico, até sabe bem.

O Cante e o Silêncio

A roda de cante é na Casa do Povo, mas não é na última sexta-feira - é quando há gente. O Sr. Toninho toca viola baiana, o outro Sr. Toninho canta, e as mulheres vão fazendo o coro. Não é espetáculo: é o que se faz depois do jantar, quando não há televisão que dê jeito. Os versos são os mesmos de sempre, mas mudam os nomes das pessoas. Quem não sabe canta no refrão, e quem não quer canta vai beber um copo à cozinha com as mulheres.

O sino toca outra vez ao pôr do sol, mas agora é diferente: é o som que diz que o dia acabou, que as galinhas já estão no poleiro, que é altura de fechar as portas. O som vai abrandando, vai abrandando, até ser só o vento nos sobreiros. Fica o cheiro a lenha que a vizinha ainda queima, o cão que ladra lá longe, e a certeza - que ninguém diz em voz alta - de que amanhã o sino volta a tocar, se o Sr. Joaquim conseguir subir as escadas.

Dados de interesse

Distrito
Évora
Concelho
Arraiolos
DICOFRE
070202
Arquetipo
CULTURA
Tier
standard

Habitabilidade e Serviços

Dados-chave para viver ou teletrabalhar

2023
ConectividadeFibra + 5G
TransporteComboio a 15.2 km
SaúdeCentro de saúde
EducaçãoEscola básica
Habitação~855 €/m² compra · 4.88 €/m² rendaAcessível
Clima16.9°C média anual · 590 mm/ano

Fontes: INE, ANACOM, SNS, DGEEC, IPMA

ADN da Aldeia

60
Romance
40
Familia
40
Fotogenia
55
Gastronomia
35
Natureza
40
Historia

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Perguntas frequentes sobre Igrejinha

Onde fica Igrejinha?

Igrejinha é uma freguesia do concelho de Arraiolos, distrito de Évora, Portugal. Coordenadas: 38.6966°N, -7.8917°W.

Quantos habitantes tem Igrejinha?

Igrejinha tem 961 habitantes, segundo os dados dos Censos.

O que ver em Igrejinha?

Em Igrejinha pode visitar Antas da Herdade do Freixo, Monte da Abegoaria, incluindo a capela de Nossa Senhora da Piedade, sacristia e zona de habitação, Igreja de Nossa Senhora da Consolação, paroquial de Igrejinha. A região também é conhecida pelos seus produtos com denominação de origem.

Qual é a altitude de Igrejinha?

Igrejinha situa-se a uma altitude média de 288.5 metros acima do nível do mar, no distrito de Évora.

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